O concelho de Viseu precisa de cuidados intensivos

Não, não vamos ficar melhor. Depois desta onda pandémica da doença Covid-19 nada mais vai ser igual e não vamos ficar nada melhor!

Texto Fernando Figueiredo Fotografia Direitos Reservados (DR)

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  • 21:00 | Domingo, 05 de Abril de 2020
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Não, não vamos ficar melhor. Depois desta onda pandémica da doença Covid-19 nada mais vai ser igual e não vamos ficar melhor! Pessimista? O pessimista nada mais é do que um optimista bem-informado, é sói dizer-se! Pessimista, realista ou optimista, qual deles é que vamos ser na fila do pão?

Sejamos pois na medida do possível realistas e não tenhamos a mínima dúvida em aceitar que a pandemia que vivemos na área da saúde provocou também uma paragem cárdio-respiratória na economia. O próximo desafio logo que seja vencido o vírus é o de reanimar a economia não só com adrenalina monetária mas também exercitando o seu músculo produtivo. Caso contrário, os danos económicos nas empresas e no emprego bem como a tragédia social serão enormes.

A economia deve ser reorganizada para que se exercite, em vez de permitir que se atrofie no confinamento económico com os sectores público e privado a trabalharem lado a lado. Não se trata de intervir ou nacionalizar, mas de coordenar esforços com honestidade e sinceridade. O estado deve orientar, não só a nível nacional como até local, mas a sociedade civil terá que responder às adversidades com engenho, tenacidade e solidariedade

Não sendo economista, não sei qual é a solução exacta, mas se respondermos a esta crise com as políticas convencionais dos anos 2010, assim como respondemos em 2009 com as receitas dos anos 2000, iremos cair no mesmo erro grave: usar a artilharia pesada do passado, obsoleta, contra esta nova crise sem precedentes.

Sejamos também optimistas acreditando na mudança de um mundo imperfeito e vendo na adversidade o caminho da oportunidade, preparando o concelho para esta nova realidade que se avizinha, dotando-o de políticas e estratégias que no futuro sejam sustentadas e geradoras de emprego, bem estar e qualidade de vida, prestando também um contributo positivo para o PIB nacional.

É já evidente no diagnóstico da “doença económica” do concelho, os sintomas do concelho, alguns dos quais fazem parte da maleita crónica que décadas a fio se instalou, a ausência de aposta na industrialização, os baixos salários, a mão de obra desqualificada, a destruturação do comércio local, entre outras a que no curto prazo se irá juntar o elevado desemprego na região, as insolvências e falências das PME locais, o encerramento de estabelecimentos comerciais e áreas de negócio além do abandono dos campos, dos lacticínios e produção agropecuária.
Muito do pequeno comércio que já se encontrava em tratamento médico desistirá de mais consultas e encerrará portas, muitas indústrias da região limítrofe a Viseu aproveitarão o lay off para se reorganizarem deixando centenas de viseenses à porta do IEFP, muitos serviços foram entretanto substituídos pelo teletrabalho, enfim, todo um mundo novo a que teremos que uma vez mais dar resposta.

Nesta altura já haverá muita gente no concelho a quem só a vergonha impede de manifestarem o drama em que vivem, mas isto não vai acabar tão cedo, sejamos claros, e um dia vão ser obrigados a procurar soluções para que a renda da casa não falhe e o pão na mesa não falte, sendo que nessas ocasiões o desespero é mau conselheiro. Haverá muitos emigrantes que ficaram já sem o biscate ou o emprego e até a menina da janela do conhecido bairro da cidade ou da Rua das Bocas deixou de ter receitas e passou a ter a fome por companhia. A criminalidade, a revolta social, o conflito de classes tenderá a aumentar e se não percebermos que precisaremos de ter um concelho mais humanizado e de dividir o pão com o vizinho, este um dia poderá querer espreitar o que temos no frigorifico.

Portanto, aqui chegados o que me apraz propor, salvo melhor análise, é que Autarquia, Segurança Social, IEFP, Associações Empresariais, Comerciais, Parceiros Sociais e demais entidades que fazem parte do Conselho Municipal de Segurança comecem a preparar medidas tendentes a dar resposta à vaga seguinte da doença económica que resultará do Covid-19.

Para este período excepcional interessará implementar medidas de excepção como:

– Isenção do pagamento de água no período de Março a Junho; isenção de taxas de saneamento, taxas de recolha de resíduos urbanos para as empresas e comércio em geral;

– Dispensa aos comerciantes do pagamento das taxas de publicidade e ocupação dos espaços públicos e isenção ou redução de todas as taxas que sobre as empresas caem de âmbito municipal; estudar a redução dessas taxas para o pequeno comércio e pequenas empresas para um período alargado a rever em início de 2022;

– Dispensa às empresas que criem postos de trabalho de todas as taxas e impostos municipais pelo período de 2 anos e redução de 50% nesses mesmos impostos àquelas que mantenham a capacidade laboral e sede fiscal no concelho;

– Solicitar ao Governo a isenção das portagens na A25 e A24 no período de Março a Junho e uma redução significativa no valor das mesmas a partir daí, ou mesmo a sua suspensão em definitivo;

– Apoiar incluindo financeiramente a indústria têxtil da região para a produção de EPI´s para as necessidades locais de profissionais de saúde e até da população em geral;

– Criar uma rede de parceiros com uma App na internet, jornais, rádios e redes sociais onde:

– As empresas coloquem as necessidades de trabalhadores e necessidades de mercado;

– Os cidadãos coloquem as suas qualificações e disponibilidades de emprego;

– A AIRV e ACDV coloquem as ofertas de formação e apoios disponíveis para empresas e cidadãos;

– O IEFP monitorize e canalize ofertas e disponibilidades enquadrando com requalificações e formações subsidiadas;

– Acções de sensibilização junto da sociedade civil (Cáritas, Misericórdias, etc.) para apoio às famílias desempregadas ou em dificuldades económicas comprovadas;

– Criação de programas de apoio às empresas locais que acolham os emigrantes portugueses que optem por cá fixar residência, e dar prioridade nas obras públicas às empresas desses emigrantes que optem por as deslocalizar para o concelho;

– Criação de programas de apoio aos imigrantes que optem por fixar residência, e dar prioridade no sector agrícola às empresas desses imigrantes que optem por as constituir para o concelho;

– Apoio à criação de emprego próprio e investimento, sobretudo na área da agricultura, através do acesso a linhas de crédito e programas comunitários e nacionais;

– Atribuição por um período de 10 anos renovável, de baldios e terrenos públicos cultiváveis, para jovens e empresários agrícolas;

– Apoio à transformação do core business das empresas através do acesso a linhas de crédito e programas comunitários e nacionais;

– Oferta de terreno público a empresas que estejam disponíveis para apostar na industrialização e criação de emprego no concelho, e apoio no acesso aos programas do Governo na área da fixação de pessoas no interior.

Certamente que outras medidas haverá e o melhor oxigénio para a sua reanimação será o lucro que no futuro daqui advenha, mas no momento importa que as pessoas que aqui escolheram viver não deixem de respirar, são elas afinal, o melhor produto que Viseu tem para oferecer ao País.

Bom trabalho!

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