O antigo matadouro de Viseu, um retrato de incúria

Foi tema de campanha do PS no “Viseu Rural, Prioridade Igual” de Miguel Ginestal, mais tarde em 2013 é Almeida Henriques que promete a sua construção e foi assim atravessando várias campanhas e governos de várias cores.

Texto Fernando Figueiredo Fotografia Direitos Reservados

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  • 14:49 | Domingo, 20 de Setembro de 2020
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Para projectar o futuro, a médio e longo prazo, não se pode recorrer a velhos planos e estratégias falhadas como as que nas últimas décadas estagnaram a região e o país.

Apostar em velhas fórmulas só faz prolongar o marasmo existencial que acomete a nossa sociedade. A compreensão e detecção dos distúrbios, tais como a falência do modo de operação das entidades financeiras (com as suas irregularidades), as económicas (como a obsolência das operações) e sociais (falta de acompanhamento dos mais vulneráveis) no seu devido tempo levam a regressões cujos impactos podem ser difíceis de mitigar ou mesmo impossíveis de eliminar.

A autonomia é um factor preponderante no desenvolvimento equitativo de uma região, já que em caso de disrupções exteriores, uma determinada estrutura é um ponto distintivo no quadro representativo do País, capaz de exercer ou assumir a função operativa de outras infraestruturas semelhantes. A palavra autonomia com o seu significado e conjugado com a capacidade operativa ou de processamento e a livre iniciativa são as principais bases para colmatar deficiências crónicas que grassam pelo nosso concelho.

Um exemplo ilustrativo que perdura há imenso tempo é o do antigo matadouro de Viseu sito em São João da Carreira, que com o seu encerramento caiu no desprezo crónico dos nossos governantes locais sem a agilização de alternativas fiáveis aos produtores.

O encerramento do Matadouro de Viseu aconteceu em Junho de 2003 com o então governo PSD do Dr. Durão Barroso, por falta de condições, o que obrigou desde essa data, já lá vão 17 anos, os produtores de gado da região a deslocarem-se à unidade de abate mais próxima, em Aveiro, dado que Oliveira do Hospital entretanto encerrou em 2019.

Em Setembro de 2004 o Governo dava nota que o projecto para a construção do novo matadouro de Viseu iria ser apresentado até ao final do ano ao Ministério da Agricultura, por uma sociedade de agentes económicos privados. Ano após ano, o projecto do MRV liderado pela sociedade MateViseu, constituída em Junho de 2007 e integrada por 14 accionistas públicos e privados (entre eles a Jan Swaegers, com 305 mil euros, com 57 por cento, segue-se a ACGBA, com 50 mil euros, 9,3 por cento, e a Câmara Municipal de Viseu, com 38.500 euros 7,1 por cento) foi sendo adiado e em Junho de 2009 conheceu novo revés com o chumbo da candidatura ao Quadro de Referência Estratégico Nacional através do Eixo Proder (Programa de Desenvolvimento Rural).

Fernando Ruas que acompanhou este processo durante uma década não lhe conseguir dar corpo e em Junho de 2010, António Lopes, presidente da ACGBA, homem da confiança de Ruas, garantia que “desta vez será diferente”, até porque já falou com o actual ministro da Agricultura que considera o Matadouro Regional de Viseu como obra “prioritária”. E dez anos depois do encerramento tudo continua igual… dos responsáveis políticos da região a partir daí nem uma palavra!

Foi tema de campanha do PS no “Viseu Rural, Prioridade Igual” de Miguel Ginestal, mais tarde em 2013 é Almeida Henriques que promete a sua construção e foi assim atravessando várias campanhas e governos de várias cores.

Dos seus custos iniciais de 2,5 milhões em 2004 para em 2006 já estar orçamentado em 5 milhões de euros, fez com que o empresário belga acabasse por desistir da construção do matadouro em Viseu, e de revés em revés, hoje o que ali resta é um edifício abandonado, onde em 2013 apareceram pintados numa das divisões pentagramas invertidos e a “armadilha do diabo”, transformando aquele que devia ser um espaço de utilidade pública num espaço tão misterioso como o seu projecto ao longo dos anos.

Actualmente, o produtor local, como referido, só encontra um posto de processamento em Aveiro, com as implicações de transporte que todos já conhecem.

Pela obsolência dos seus espaços interiores foi desactivada há quase duas décadas, esta infraestrutura vital para a pecuária, que esteve muitos anos ao dispor deste sector. Sem a devida requalificação de espaços exíguos ou a modernização de equipamentos, não se adequou às normas sanitárias que foram sendo aperfeiçoadas a bem da saúde pública, rapidamente se ponderou o seu encerramento e não mais se encontrou solução ou alternativa.

Assim, a região, face a situações epidémicas (com restrições de deslocações), não é autónoma nesta matéria e não desempenha um papel na mitigação das necessidades alimentares. Os produtores locais estão em desigualdade competitiva face aos do litoral, com acesso mais barato à unidade transformadora e certificadora do seu gado, sendo que o talho ou o supermercado, ao escolherem o produto em função do preço, os deixam de fora sem condições para escoarem o produto e dessa forma pouco a pouco vão desistindo da actividade.

É assim que os governantes locais esperam apoiar os produtores de leite e carne?

Hoje, naquele local, jaz uma estrutura em ruínas, uma área ignorada, caída no esquecimento de gente pusilânime politiqueira (com agendas pessoais de sobrevivência), a quem não se reconhece exigência pela causa pública. À alternativa que por aí se desenha também não se ouviu ainda uma ideia, uma que fosse!

Não conseguem apontar soluções, discutir os prós e contras, projectar um programa de intervenção nem operacionalizar (como executar) com a consequente alocação de meios e intervenção no terreno e traçar o modo de governança, gestão, sobrevivência e autonomia para o futuro.

É quase impossível o matadouro voltar a exercer a mesma função naquele local, dado que na área houve uma consolidação do território envolvente com a construção de áreas residenciais e como tal fica vedada a possibilidade de exercer um trabalho logístico adequado. Quais os locais alternativos para instalar a função? Como financiar a construção de um novo matadouro? Quais as parcerias mais favoráveis a explorar? A centralidade de Viseu facilita uma infraestrutura desta natureza e uma PPP pode ser o caminho para a viabilizar. Vai aparecer de novo na campanha autárquica?

E entretanto, o que fazer com o local onde subsiste a infraestrutura obsoleta?

Fica a questão no ar e a esperança que ali venha a nascer algo de útil para os viseenses. Para isso, é necessário que se fomente a livre iniciativa, prática a que a sociedade viseense está alheada porque se encontra amorfa, sem poder de reivindicação (favorecendo involuntariamente as interferências politiqueiras nas instituições sociais locais). É necessária autonomia e distância de uma corte (já pouco social democrata) que se instalou no poder e que dele se serve mas não o serve.

Estamos cada vez mais delapidados de gente séria que trabalhe para o bem comum. O único matadouro que ainda existe na cidade é o das ideias mas ainda estamos a tempo de evitar que quem já nos comeu a carne nos venha a querer comer os ossos! Acordem…

 

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