O Acordo Ortográfico ainda não pode ser julgado

Talvez daqui a cinquenta anos uma nova geração de estudiosos conclua que algumas opções do Acordo Ortográfico deveriam ter sido revistas. Talvez conclua que a reforma cumpriu plenamente os seus objetivos. O tempo ainda não terminou o seu trabalho.

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  • 10:51 | Sexta-feira, 24 de Julho de 2026
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Há uma pergunta que raramente encontro no debate sobre o Acordo Ortográfico: será que já passou tempo suficiente para o julgar? A facilidade com que se proclama o seu sucesso ou o seu fracasso revela, muitas vezes, uma dificuldade em compreender o ritmo próprio da História. Como historiador, aprendi que as grandes transformações raramente podem ser avaliadas enquanto ainda estão a acontecer. O tempo é um elemento essencial para perceber o verdadeiro alcance das mudanças profundas de uma sociedade, sejam elas políticas, culturais ou linguísticas.

E as línguas, talvez mais do que qualquer outra criação humana, não obedecem ao calendário das decisões políticas. Uma língua não muda porque um decreto é publicado, nem deixa de mudar porque alguém se opõe a essa mudança. As línguas transformam-se lentamente, através da escola, dos livros, dos escritores, dos meios de comunicação, das novas tecnologias e, sobretudo, através das gerações que as aprendem e utilizam.

É precisamente por isso que me parece precipitado afirmar, apenas vinte anos depois da implementação do Acordo Ortográfico, que esta reforma foi um fracasso. Vinte anos podem parecer muito na vida de uma pessoa, mas representam um período extremamente curto na história de uma língua com quase nove séculos de existência. Nenhuma grande transformação linguística pode ser verdadeiramente avaliada enquanto a primeira geração que a recebeu na escola ainda está a construir o seu percurso académico, profissional e cultural.

A História da ortografia portuguesa demonstra isso mesmo. As reformas anteriores também provocaram resistência e também foram vistas por muitos como uma rutura com a tradição. Durante séculos escrevemos palavras como pharmacia, photographia, orthographia ou theatro. Quando essas grafias foram alteradas, houve quem considerasse que se estava a destruir a ligação da língua às suas origens históricas. Hoje, porém, essas formas pertencem ao património escrito do passado e poucos defenderiam seriamente o seu regresso.


Esse exemplo deve levar-nos a alguma humildade perante o presente. Muitas vezes esquecemos que aquilo que hoje consideramos natural foi, em determinado momento, uma mudança polémica. A língua que recebemos nunca foi exatamente a língua dos nossos antepassados, porque cada geração recebeu uma herança linguística e acrescentou-lhe a sua própria marca.

Existe, contudo, uma realidade que ninguém pode ignorar. Enquanto alguns continuam a discutir se o Acordo Ortográfico devia ou não ter existido, há uma geração inteira que aprendeu a escrever segundo as suas regras. Muitos jovens nunca escreveram “acção”, “direcção” ou “recepção” porque essas palavras nunca fizeram parte da sua aprendizagem escolar. Para eles, a forma natural é “ação”, “direção” e “receção”. Não houve uma perda, porque não existe memória de uma alternativa.

É aqui que a tecnologia veio acelerar um processo que, no passado, demoraria certamente mais tempo. Os computadores, os telemóveis, os corretores ortográficos, os motores de pesquisa e, mais recentemente, os sistemas de inteligência artificial trabalham naturalmente com as normas atualmente utilizadas. A escrita digital, que domina cada vez mais a nossa comunicação, tornou-se também um poderoso agente de consolidação linguística.

Isto não significa que o Acordo Ortográfico seja uma reforma perfeita ou que não possa ser discutido. Todas as reformas têm imperfeições e todas podem ser melhoradas. Uma língua viva nunca deve fechar a porta ao debate científico, nem os linguistas, escritores e professores devem deixar de analisar criticamente as escolhas feitas. A discussão é saudável e faz parte da própria evolução da língua.

Mas uma coisa é discutir a qualidade de algumas opções do acordo; outra, bem diferente, é defender que devemos regressar ao ponto anterior como se os últimos vinte anos nunca tivessem existido. A História mostra-nos que as reformas ortográficas, quando entram na escola e passam a fazer parte dos hábitos de escrita de uma geração, dificilmente são anuladas.

Também não parece razoável exigir ao Acordo Ortográfico um objetivo que nenhuma língua internacional conseguiu alcançar: eliminar todas as diferenças entre países e comunidades. O português continuará a ter variantes nacionais, diferentes pronúncias e vocabulários próprios. O mesmo acontece com o inglês, o espanhol ou o francês. A riqueza de uma língua global está precisamente na capacidade de unir comunidades diferentes sem apagar a sua diversidade.

Talvez o maior problema deste debate seja confundirmos memória com imobilidade. Respeitar a história da língua portuguesa não significa impedir que ela continue a evoluir. Pelo contrário, significa compreender que a mudança sempre fez parte dessa história. Camões não escrevia como Fernão Lopes, Fernando Pessoa não escrevia como Camões e nós não escrevemos exatamente como os nossos escritores do século XIX.

Como historiador, não pretendo antecipar um julgamento que pertence ao futuro. Talvez daqui a cinquenta anos uma nova geração de estudiosos conclua que algumas opções do Acordo Ortográfico deveriam ter sido revistas. Talvez conclua que a reforma cumpriu plenamente os seus objetivos. O tempo ainda não terminou o seu trabalho.

Mas há uma conclusão que já podemos retirar: o Acordo Ortográfico deixou de ser apenas uma decisão política e passou a ser uma realidade cultural vivida por uma geração inteira. Podemos debatê-lo, aperfeiçoá-lo e estudá-lo, mas dificilmente poderemos fingir que a história da língua portuguesa ficou parada no momento anterior à sua entrada em vigor.

As línguas sobrevivem porque mudam. E o português continuará a sobreviver precisamente porque, ao longo dos séculos, soube adaptar-se sem perder a sua identidade.

 

Paulo Freitas do Amaral

Professor e Autor

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