No início de uma nova época, deixemos as crianças sonhar

Uma criança pode começar por querer simplesmente jogar e acabar a sentir que tem de provar alguma coisa. E esse é um dos grandes riscos do envolvimento parental: quando o sonho dos adultos começa a ocupar demasiado espaço no sonho da criança.

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  • 12:20 | Segunda-feira, 14 de Setembro de 2026
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Começa uma nova época desportiva.

Voltam os treinos, as competições, os equipamentos, as bancadas, os encontros entre amigos e aquela expectativa própria de quem inicia um novo caminho.

Para muitas crianças, começa mais uma aventura.


Para alguns adultos, começa também uma nova corrida.

Uma corrida pelos resultados, pelas convocatórias, pela titularidade, pelas classificações, pelos golos, pelas medalhas e, por vezes, por um futuro que ainda ninguém sabe se a criança deseja.

É aqui que talvez devêssemos parar por um instante. Porque uma nova época não deve começar com a pergunta “até onde poderá chegar o meu filho?”, mas com outra muito mais simples: “como posso ajudá-lo a desfrutar deste caminho?”

O desporto de formação é, antes de tudo, um espaço de crescimento.

É através dele que uma criança pode aprender a trabalhar em equipa, a respeitar regras, a lidar com a vitória e com a derrota, a ultrapassar dificuldades, a assumir responsabilidades, a fazer amigos, a ganhar autonomia e a descobrir capacidades que talvez nem soubesse possuir.

É muito mais do que ganhar. E é precisamente por isso que o papel dos pais é tão importante. O envolvimento parental pode ser extraordinariamente positivo. O apoio da família pode dar confiança, segurança e motivação. Pode ajudar uma criança a persistir quando as coisas não correm bem e a celebrar sem perder a humildade quando correm bem.

Mas o mesmo envolvimento, quando ultrapassa determinados limites, pode transformar-se em pressão. E a pressão nem sempre chega através de palavras duras. Às vezes chega disfarçada de preocupação.

“Podias ter feito melhor.” “Porque é que ele joga e tu não?” “Quantos golos marcaste?” “O treinador não te pôs a titular porquê?” “Se continuares assim, nunca vais chegar a lado nenhum.” São frases que podem parecer pequenas para quem as diz. Mas podem tornar-se enormes para quem as ouve.

Uma criança pode começar por querer simplesmente jogar e acabar a sentir que tem de provar alguma coisa. E esse é um dos grandes riscos do envolvimento parental: quando o sonho dos adultos começa a ocupar demasiado espaço no sonho da criança.

Muitos pais querem, naturalmente, o melhor para os seus filhos. Procuram a melhor modalidade, o melhor clube, o melhor treinador. Incentivam, acompanham, sacrificam tempo e recursos.

Tudo isso é importante. Mas é igualmente importante perguntar: Estamos a acompanhar o sonho deles ou estamos a tentar concretizar através deles um sonho que é nosso? Nem todas as crianças serão campeãs. Nem todas terão talento para chegar ao mais alto nível. Nem todas vão querer seguir a mesma modalidade durante muitos anos.

E está tudo bem. Uma criança não precisa de chegar ao profissionalismo para que o seu percurso desportivo tenha valido a pena. Pode nunca levantar um troféu. Pode nunca marcar o golo decisivo. Pode nunca subir ao pódio.

Mas pode sair do desporto mais confiante, mais responsável, mais autónoma, mais resiliente e mais preparada para a vida.

E isso também é sucesso. Talvez seja até o sucesso mais importante.

Por isso, no início de mais uma época, talvez devêssemos estabelecer algumas prioridades. Incentivar a prática, mas não transformar cada competição numa obrigação de ganhar. Valorizar o esforço, a atitude e a evolução, em vez de olhar apenas para o resultado. Respeitar o ritmo e as escolhas da criança. Permitir que experimente, descubra e até mude de modalidade. Evitar comparações. E, sobretudo, fazer da família um lugar seguro. Porque a criança já tem um treinador para corrigir. Já tem adversários para enfrentar. Já tem resultados para aceitar. Já tem desafios suficientes.

Em casa, precisa de encontrar pais.

Pais que apoiem. Pais que escutem. Pais que saibam celebrar uma vitória sem a transformar numa obrigação de vencer novamente. Pais que saibam estar depois de uma derrota sem a transformar numa sessão de críticas. Pais que compreendam que, muitas vezes, a melhor intervenção depois de uma competição não é explicar o que correu mal.

É simplesmente perguntar: “Gostaste?”. E ouvir a resposta.

No início de uma nova época, não sabemos quantos jogos serão ganhos, quantas medalhas serão conquistadas ou que resultados aparecerão no final. Mas podemos decidir desde já uma coisa: que memória queremos que os nossos filhos guardem desta época.

A memória de um desporto vivido com alegria? De amizades construídas? De desafios superados? De adultos que acreditaram neles? Ou a memória de bancadas onde sentiram que nunca fizeram o suficiente?

O resultado de amanhã pode desaparecer da memória. A forma como os fizemos sentir pode ficar para sempre. Por isso, neste início de época, talvez o nosso maior desafio enquanto pais não seja ajudar os nossos filhos a chegar mais longe.

Seja ajudá-los a gostar do caminho. Porque educar o sonho não é escolher o destino por eles. É dar-lhes espaço, confiança e liberdade para descobrirem o seu próprio caminho.

E, enquanto eles correm atrás dos seus sonhos, nós devemos lembrar-nos de uma coisa essencial: o sonho é deles.

 

Vitor Santos

Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto

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