Memórias de um passado futuro: breves notas sobre o regresso de Fernando Ruas

A agonia do centro histórico, o estertor da Ribeira, a artificialização do Rio Pavia, o malogrado Mercado 2 de Maio, os parques industriais fantasma, o inútil funicular, entre outros, são o corolário de opções políticas duvidosas e obstinadas, tomadas sem a devida fundamentação técnica nem a discussão pública que mereciam.

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  • 21:08 | Segunda-feira, 19 de Julho de 2021
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O desaparecimento trágico do presidente da Câmara Municipal de Viseu António Almeida Henriques, vítima da pandemia e de um Estado que falhou na sua função primária de defesa da vida das populações, veio despertar dos confins da História – qual saudosismo sebastianista – o regresso à ribalta do antecessor Fernando de Carvalho Ruas.

Eleito presidente da Câmara de Viseu em 1989, onde viria a permanecer até ao seu afastamento por força da lei de limitação de mandatos em 2013, Fernando Ruas não resistiu ao chamamento messiânico e promete agora, em 2021, dar corpo a “um projecto com futuro”.

Antes de mais, em abono da verdade, impõe-se recordar que Fernando Ruas, homem íntegro e dedicado servidor da coisa pública, foi um incansável defensor da sua terra e das suas gentes, bem como das causas do interior e da coesão territorial. Sob a liderança de Fernando Ruas, Viseu conheceu um importante período de crescimento, a contraciclo com o definhamento do interior, e de materialização de investimento público significativo em infraestruturas viárias, escolares, desportivas, de saneamento e abastecimento de água, entre outras, colocando Viseu numa posição de destaque entre as cidades portuguesas de média dimensão. É, por estes motivos, credor do nosso agradecimento e reconhecimento colectivo.


Não obstante, e também em abono da verdade, não devemos esquecer que o legado autárquico de Fernando Ruas ficou indelevelmente marcado por uma concepção tribalista do poder local, agravada por uma certa incapacidade de diálogo, de escutar os outros e de estabelecer pontes, e por uma dificuldade persistente em reconhecer e corrigir erros de percurso.

A agonia do centro histórico, o estertor da Ribeira, a artificialização do Rio Pavia, o malogrado Mercado 2 de Maio, os parques industriais fantasma, o inútil funicular, entre outros, são o corolário de opções políticas duvidosas e obstinadas, tomadas sem a devida fundamentação técnica nem a discussão pública que mereciam. O exemplo do funicular é clamoroso e gritante. Apresentado em 2009 como o futuro “ex-líbris da cidade”, com um custo de construção superior a 5 milhões de euros, parcialmente suportado pela autarquia, e despesas de operação e manutenção superiores a 300 mil euros anuais, este meio de transporte conheceu um fim prematuro e inglório sem nunca ter visto demonstrada a sua utilidade.

Além dos elefantes brancos e outros erros de percurso não assumidos, os mandatos de Fernando Ruas caracterizam-se ainda pela oportunidade política perdida para afirmar uma voz construtiva e liderante no plano regional. Rejeitada a regionalização no referendo de 1998, Portugal permanece refém das reformas administrativas levadas a cabo no século XIX por Mouzinho da Silveira e Passos Manuel. Um dos equívocos do debate da regionalização é a ideia de que será possível desenhar e impor de cima para baixo novas regiões administrativas ao arrepio da História, da vontade e das lógicas de interacção das comunidades locais. É precisamente a partir da interacção intermunicipal, em particular por via da gestão conjunta de interesses e valores comuns (transportes, ambiente, abastecimento de água, resíduos, protecção civil, educação e formação, turismo, cultura, …), que se poderão consolidar novas dinâmicas, novas aspirações e novos desígnios regionais, não necessariamente coincidentes com os obsoletos distritos, as artificiais regiões-plano ou as tradicionais províncias portuguesas. Fernando Ruas, ao adoptar o “modo de ilha” na gestão autárquica, abdicou de colocar o seu carisma e todas as suas qualidades ao serviço da construção de um projecto regional mais abrangente, inspirado e liderado a partir de Viseu, com os municípios vizinhos que a ele se quisessem livremente associar.

Também no plano externo os mandatos de Fernando Ruas se caracterizam pela inacção e oportunidade perdida. A título de exemplo, veja-se a forma lúdica e folclórica como sempre foram encarados os protocolos de geminação com municípios estrangeiros, sem se conhecerem os orçamentos, os protagonistas, as actividades e os frutos desses relacionamentos. O grau de amadorismo na condução das relações externas do município é confrangedor quando se percebe que nunca correspondeu a qualquer estratégia de diplomacia económica, captação de investimento, cooperação, ligação às diásporas e às comunidades de luso-descendentes, internacionalização das instituições de ensino superior locais, ou qualquer outro objectivo ao serviço do município, das suas populações, empresas e instituições.

Ao longo dos seus 24 anos de mandatos na Câmara Municipal de Viseu, Fernando Ruas já deu provas do que é capaz e do que não é capaz de fazer. Vencer a interioridade exige hoje um novo rasgo para conciliar soluções experimentadas do passado com soluções novas para problemas cada vez mais complexos e exigentes: a sustentabilidade e competitividade dos territórios de baixa densidade, os desafios da economia circular e da economia digital, a urgência da inovação social, a preservação e valorização da memória colectiva e da identidade cultural, a regeneração urbana, a necessidade de colocar a cultura simultaneamente ao serviço do desenvolvimento económico e do desenvolvimento pessoal.

Fernando Ruas nunca aceitou a lei de limitação de mandatos – que sempre considerou um “castigo” – por não compreender verdadeiramente o alcance do seu objectivo mais nobre: a salubridade do regime democrático. A democracia implica participação, mas também renovação e regeneração de ideias e de protagonistas. Saber sair de cena é, por isso, um acto de dignidade e altruísmo. Assim não aconteceu. Fernando Ruas justifica o seu regresso em 2021 com base numa memória e num legado, arriscando-se porém a ficar para a História como um usurpador de futuros e de sonhos de uma comunidade local que merecia outra ambição. O expectável regresso de Fernando Ruas revela ainda a falência de uma comunidade que abdica de tomar as rédeas do seu destino e se deixa aprisionar pela crença ilusória num homem providencial.

 

 

 

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