Lições a tirar da eleição presidencial

Ao contrário do que propalaram comentadores e “politolos”, não se verificou uma transferência de votos do PCP para a extrema-direita no Alentejo, uma vez que a votação de João Ferreira foi apenas ligeiramente inferior à de Edgar Silva e até maior em percentagem. De resto, também não se verificou nenhum prémio ao PCP por ter votado a favor do OE 2021.

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  • 15:34 | Sábado, 06 de Fevereiro de 2021
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Parece-me ser uma conclusão óbvia dos resultados eleitorais que Marcelo Rebelo de Sousa captou votos de eleitores de todos os partidos, sem esquecer que há eleitores que não têm partido ou votam ora num ora noutro, conforme as circunstâncias, tanto mais que se tratou de candidaturas unipessoais e nem todos os candidatos foram apoiados partidariamente.

António Costa, ao decidir apoiar tacitamente a reeleição do presidente, trocou as voltas ao eleitorado do PS, que foi votar maioritariamente em Marcelo, e ao eleitorado da direita que, descontente com o “desvio centrista” do seu “candidato natural”, foi (a maioria talvez ingenua e perigosamente) sentar-se ao colo do candidato da extrema-direita racista, xenófoba e apoiada por fascistas e neonazis. É evidente que nem todos os que votaram Ventura são fascistas, mas provam que em Portugal há muita gente racista e xenófoba. Claro que a maior parte dos que se deixaram iludir pela “banha-da-cobra” há-de arrepender-se, num futuro breve, como aconteceu com muitos eleitores de Trump e Bolsonaro.

Ana Gomes, sem o apoio do seu partido, surgiu como a candidata da ala mais progressista do PS (muito minoritária), embora também tivesse apoios no extremo oposto, como Francisco Assis. Nem a JS a apoiou directamente ao apelar ao voto nos três candidatos de esquerda, Ana Gomes, João Ferreira e Marisa Matias.


Uma grande parte do eleitorado do BE, com receio de que Ventura ficasse em segundo lugar, votou em Ana Gomes e em Marcelo. No entanto, falharam os inúmeros augúrios que pressagiaram um castigo severo do BE pelos seus eleitores supostamente descontentes com o voto contra o Orçamento de Estado de 2021. A RTP fez uma sondagem à boca das urnas sobre as intensões de voto nas legislativas e os mesmos eleitores já dariam ao Bloco 8% dos votos, mais do dobro da percentagem obtida por Marisa. Aliás, a actual entropia do SNS, com milhares de exames de diagnóstico e operações de doenças oncológicas e crónicas a serem adiadas (o que resultará, segundo especialistas, num aumento da mortalidade nos próximos anos), para acudir aos doentes da Covid-19, veio provar que o BE tinha razão ao colocar no centro das exigências para aprovar o OE2021, o reforço do investimento, em pessoal e meios técnicos, na Saúde.

Ao contrário do que propalaram comentadores e “politolos”, não se verificou uma transferência de votos do PCP para a extrema-direita no Alentejo, uma vez que a votação de João Ferreira foi apenas ligeiramente inferior à de Edgar Silva e até maior em percentagem. De resto, também não se verificou nenhum prémio ao PCP por ter votado a favor do OE 2021.

A esquerda fez o seu dever ao apoiar candidaturas alternativas aos projectos de direita e extrema-direita. Só o PS desertou desse combate.

Rui Rio é responsável pelo “branqueamento” da extrema-direita iniciado nos Açores, nos apelos para a moderação do Chega como condição para acordos no Continente e no entusiasmo, na noite eleitoral, com o alegado “esmagamento da esquerda”.

Os salazaristas e os ressabiados do 25 de Abril, até há pouco tempo camuflados no PSD e no PP (da mesma forma que os franquistas se acoitaram no PP espanhol até ao surgimento do Vox), já têm o seu pequeno “führer”. Chegados a este ponto, importa saber: como se derrota a extrema-direita?… Com mais e melhor democracia, redução das desigualdades sociais e territoriais, leis que protejam melhor quem trabalha e os desempregados, melhores serviços públicos ( Educação, Cultura, Segurança Social, melhores transportes públicos e menos poluentes e, sobretudo, mais investimento na Serviço Nacional de Saúde), com uma cultura da cidadania e tolerância zero à corrupção, ao nepotismo, ao compadrio, ao racismo, à xenofobia, à homofobia, ao machismo, à misoginia e a todas as formas de ódio, violência e discriminações preconceituosas proibidas na Constituição da República Portuguesa.

 

(Foto DR)

 

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Publicado em Opinião