Lido muito mal com a sobranceria, a superioridade moral e intelectual, que se exibe a rodos, que se alardeia, sem se saber muito bem a sua origem e justificação, a sua razão de ser. Uma samarra de burel que esconde as miudezas.
Sinto-me desenraizado com a vaidade podre e que não conhece fronteiras. Com os tiques afectados, com os ademanes apócrifos. Incomodam-me. Retratos deformados, tremidos, de uma realidade que, entre engodos e pressas, nos escapa. É o discurso da embriaguês pedante que me irrita, umas banalidades sem substância, a crítica soez, o verbo mordaz, um caleidoscópio de intrujices manhosas.
É também por tudo isso – muito para além da ideologia – que não suporto o senhor. O gel, o aprumo em excesso, o gesto estudado, a promessa calculada, aquele ar de menino da Linha, educadinho, formatado, asséptico, a barbicha afilada, o modelito sem caspa. O fato da alta costura, o blusão da feira dos cavalos da Golegã, o cachecol Burberry, o colete tinto da Labrador. Tudo dentro do prazo de validade.
Tanto ajuste, uma monotonia que enxofra, tudo a carrilar afinado na bitola certa só pode ser irreal, produto de uma máquina de enlatados e de fumeiro caseiro de Vinhais. Um acordeonista dos talentos falidos, com sabor a aloe vera e aroma de incenso afrodisíaco, capa da revista Maria, em formato familiar, fétiche das mulheres de meia idade, silicone q.b. próteses e implantes dentários disfarçados. Estou a milhas.
Pode ser tudo verdade, mas, no refluxo gástrico que a hérnia do hiato facilita, fica-me um travo amargo a fadas e princípes encantados.
Prefiro quem é humilde, modesto, quem admite pagar multas e coimas, quem fala de igual para igual, sem uma pose elitista, distante, quem frequentou a escola pública, quem subiu as escadas, quem não dormiu em camas de algodão, nem teve criadas para lhe tirarem os caroços das cerejas.
Prefiro quem aprendeu a dar corda aos sapatos, a quem não se acomodou.
Prefiro a simplicidade aos adornos de pechisbeque, à lataria das condecorações, aos conselhos de administração bem almofadados, remunerados a peso de ouro.
O diferente que é igual.
REBELO MARINHO