Desastrado

Embora seja muito difícil que haja uma alteração substantiva nos votos e nos mandatos, a verdade é que o bom-senso recomendava que tudo se fizesse em concordância com a normalidade. Ouvir todos, depois de tudo se saber. A seu tempo. Sem saltar etapas. Diziam os mais antigos que as cadelas apressadas parem os cachorros malucos. Na sua sabedoria simples, acertavam no juízo final. Bem que o PR, na sua sofreguidão doentia, os podia ter ouvido. Mas este foi o segundo percalço.

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  • 14:09 | Segunda-feira, 18 de Março de 2024
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Repentista, como sempre, Marcelo anda um tanto ou quanto desastrado. Dele, espera-se o exemplo e o cumprimento das boas práticas. As audiências aos partidos antes do apuramento final dos resultados é uma etapa sem sentido cívico, uma deselegância institucional.

Por muito que se possa antecipar o desfecho, na esteira da tendência nacional já detectada, contornar a manifestação da sua vontade é sempre uma desconsideração desnecessária para com os compatriotas emigrados. Também aqui, nestes momentos de soberania, o respeitinho é muito bonito e bom de se sentir. E depois queixam-se da abstenção. Pois, se tão pouca relevância é dada a quem montou banca de trabalho no exterior…

Embora seja muito difícil que haja uma alteração substantiva nos votos e nos mandatos, a verdade é que o bom-senso recomendava que tudo se fizesse em concordância com a normalidade. Ouvir todos, depois de tudo se saber. A seu tempo. Sem saltar etapas. Diziam os mais antigos que as cadelas apressadas parem os cachorros malucos. Na sua sabedoria simples, acertavam no juízo final. Bem que o PR, na sua sofreguidão doentia, os podia ter ouvido. Mas este foi o segundo percalço.

O primeiro viu a luz do dia  quando Marcelo, num gesto traiçoeiro, na vizinhança do acto eleitoral, disse que faria tudo para que o Chega não fosse para o governo. Ocorreu-me que o PR não tinha de se imiscuir na vontade dos eleitores. E querendo condicioná-la, acabou por soltar a fera que entrou desembestada pelas assembleias de voto adentro. Talvez tenha dado um empurrãozinho para a surpresa acontecer.


Estas interferências são absolutamente negativas. Têm um piquinho a mofo e a bolor. E agora? Mesmo excluindo a sua participação no governo, como ignorar a importância de mais de 1 milhão de votos e 48 deputados eleitos, que com os votos da emigração poderão ser 50? Como contrariar a sua presença na mesa da AR, no Conselho de Estado e no Conselho Superior do Ministério Público? E proibindo-as, onde anda o respeito pela vontade popular? Bem sei que agora a teoria simplista é baptizar o Chega de fascista e apoucar os seus votantes, mas isso é redutor e míope. Acontece, porém, esta evidência: as”cruzinhas” no Chega são tão válidas quanto todas as outras. Nem mais nem menos. E não há 1 milhão de portugueses racistas e xenófobos radicais. Saudosos de um Estado securitário e descontentes com a contemporânea barafunda, talvez. Seguindo o histórico recente, tirava-me das minhas humildade para alvitrar que não se construam cercas sanitárias em redor do Chega. Só será combustível para alimentar a fogueira da vitimização fácil. E o partido inchará, até robustecido, nas próximas eleições, se puder continuar a capitalizar essa segregação, se continuar confinado às bancadas do Parlamento, impedido da representação noutros órgãos.

É prudente evitar os cordões, mesmo que o osso seja duro de roer e a carne custe a engolir. Aposte-se num melhor SNS, sem filas de espera e com médicos de família para todos, invista-se na escola pública, com professores motivados para todos os alunos, diminua-se a pesadíssima carga fiscal sobre os portugueses, moralize-se o RSI, erradique-se a pobreza, taxem-se os lucros fabulosos da banca, 12 milhões de euros num só dia, no ano transacto, uma enormidade obscena, e o descontentamento, por certo, vai esvaziar, à falta de pasto viçoso para medrar.

Sejamos claros e audazes, tiremos as teias de aranha dos olhos, o problema não está no Chega, reside no descontentamento popular, a questão não está nos dirigentes do Chega, encontra-se no modo arrogante e impune de fazer política, durante 50 anos.

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Publicado em Opinião