Francisco Pinto da Cunha Leal, nascido em 1888 e falecido em 1970, foi uma das figuras mais singulares da política nacional nas primeiras décadas do século XX.
Engenheiro militar, professor e político de vocação incansável, destacou-se por possuir uma notável independência de espírito, chegando a assumir a Presidência do Ministério – a que correspondia a chefia do Governo, em finais de 1921, fundando, mais tarde, o partido da União Liberal Republicana. Recusando sempre clientelismos, ou dogmas, foi um crítico feroz da hegemonia do Partido Democrático durante a Primeira República e, mantendo a coerência e coragem, foi um dos mais acérrimos opositores à ditadura do Estado Novo. Tal percurso de insubmissão e brilhantismo intelectual fez dele, ao longo da ditadura, o último grande bastião de combate republicano e uma das vozes morais do reviralho.
Esta combatividade política, diga-se, não era apenas uma estratégia, mas, pelo contrário, a essência do seu caráter. Cunha Leal atacava os erros dos adversários com a mesma ferocidade com que defendia as suas crenças, não poupando críticas, quer à esquerda radical, quer aos conservadores reacionários. O Parlamento era, por isso, o seu ecossistema natural, o lugar onde o seu discurso acutilante e destemido desmascarava a incompetência alheia, fazendo dele um líder respeitado, mas inevitavelmente temido e odiado por muitas fações.
Foi precisamente por ter uma exposição contínua que Cunha Leal acumulou adversários declarados, com desgaste da sua imagem pública. Tornou-se, por essa razão, no alvo fácil dos críticos do sistema democrático republicano. A sua postura transparente e de confronto direto, embora moralmente inatacável, revelou-se politicamente imprudente num país que começou a ansiar por ordem, ainda que essa ordem implicasse a perda de direitos.
Quando o golpe militar de 28 de maio de 1926 derrubou a República, o país entrou numa espiral de incerteza e experimentalismo, onde as velhas glórias do parlamentarismo foram, de pronto, marginalizadas. À altura, os militares, face à sua própria incapacidade governativa, procuraram, não um político apaixonado e convicto, como Cunha Leal, mas sim um técnico, um burocrata, capaz de colocar ordem no Estado, sem que com isso qualquer sombra fosse feita aos generais. O terreno estava então preparado para que a política abandonasse, definitivamente, os palanques do parlamento e passasse a fazer-se apenas nos corredores obscuros dos ministérios.
É nesse contexto que emerge a figura de António de Oliveira Salazar. Professor em Coimbra e um católico conservador, Salazar era a antítese de Cunha Leal. Onde o segundo era fogo, o primeiro era gelo. Enquanto um procurava o debate público, o outro preferia o recato dos gabinetes. Se Cunha Leal sempre deu o peito às balas, Salazar construiu uma aura de distanciamento, já que era avesso ao debate e à discussão.
Como todos sabemos, a ascensão de Salazar não foi feita por vitórias eleitorais ou discursos arrebatadores. Salazar, movendo-se sempre na sombra, cultivou habilmente a imagem de um técnico competente, mas sem ambição, o homem que apenas aceitava o poder por dever e sacrifício patrióticos. Esse enigma permanente era a sua principal arma, desarmando os opositores que nunca conseguiam ler as suas verdadeiras intenções.
O contraste entre os dois homens e os seus caminhos não podia ser maior. Cunha Leal, apercebendo-se do rumo autoritário que se instalava, não se calou. Denunciou e escreveu, combatendo os ventos ditatoriais com a mesma coragem de sempre. Contudo, os seus alertas esbarraram num país já controlado e castrado pelas políticas autoritárias que emanavam de São Bento.
E enquanto Cunha Leal iria pagar o preço da sua frontalidade com o exílio, a prisão e o silenciamento progressivo, Salazar ascenderia à Presidência do Conselho em 1932, cimentando o Estado Novo sem precisar de levantar a voz. Na verdade, desde cedo Salazar havia percebido que em tempos de transição o poder não se conquista na praça pública, mas sim com estratégico silêncio e aproveitando as ruínas do anterior sistema, anulando os adversários, um a um, até que o poder fique disponível, para ser tomado.
A vitória política de Salazar sobre uma figura como Cunha Leal não foi o triunfo da melhor ideia ou proposta. Foi, isso sim, a vitória da dissimulação sobre a transparência. Cunha Leal perdeu porque sempre tinha jogado o jogo da política com as cartas na mesa, assumindo a combatividade como um dever moral. Pelo contrário, Salazar triunfou precisamente porque sempre manteve as suas cartas escondidas, usando o silêncio enigmático para ascender ao poder. Tal estratégia deu início a uns longos trinta e seis anos de controlo pessoal de uma nação que, quando percebeu a real natureza do ditador, já não se conseguiu libertar.
Marco Girão