Consciência pós-morte

Estamos em plena Covid e por isso esperava uma desinfeção à mesa ou que fosse desocupada dos dois copos de plástico onde os anteriores fregueses tinham tomado as suas doses de cafeína.

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  • 15:28 | Quinta-feira, 23 de Julho de 2020
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É legítimo perguntar como sabes, se estás morto. Quando tomas consciência do teu estado de morto?

Hoje de manhã levantei-me e como de costume fui tomar café, não na esplanada habitual, mas noutro local também com sombra, que era o importante naquela manhã avançada de julho. Escolhi uma das três mesas vagas, esperei um pouco de pé, pelo consentimento de umas das empregadas que iam passando, mas acabei por me sentar.

Estamos em plena Covid e por isso esperava uma desinfeção à mesa ou que fosse desocupada dos dois copos de plástico onde os anteriores fregueses tinham tomado as suas doses de cafeína.


Quase em simultâneo chega um jovem de aspeto futurista e senta-se na segunda mesa vaga, pouco esperou para que lhe perguntassem o que queria. Pouco depois chega um casal que se senta na mesa restante. Saiu uma outra empregada disparada para eles e pergunta o que vão tomar. Bom, certamente eram clientes habituais por isso a deferência no atendimento prioritário, mas o jovem desalinhado não me pareceu ser habitual, enfim eu era novo naquela pequena esplanada, por isso !…

Troquei os óculos de Sol pelos minúsculos óculos de ler e comecei a dedilhar o ecrã do meu iPhone. E aguardei, e observei e aguardei, mas nada acontecia. Peguei num guardanapo de papel e limpei as lentes, depois encavalitei os dois copos dos clientes anteriores, coloquei lá dentro os restos de papel dos pacotes de açúcar e as colherinhas de madeira, era uma forma de sinalizar a minha disponibilidade para tomar a minha dose de cafeína, não fossem as senhoras empregadas julgar que eu era o cliente sobrante daquela mesa. Mas não, nada acontecia !…

Decidi levantar-me calmamente, arrumei os óculos pequenitos de ler no invólucro metálico, meti a chave do Volvo no bolso e saí em passo nem rápido nem lento, um pouco na esperança de ser interpelado por alguma das duas empregadas. Mas não, nada acontecia!…

Atravessei a rua fui ao café onde habitualmente o tomo. Nesse curto caminho existe uma passadeira para peões. Foi aí, em cima da passadeira nem muito à frente nem muito atrás, que pensei, se calhar estou morto.

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