Célinho e Toni

E, azar dos Távoras, veio a quarentena de Célinho, e o vazio que se seguiu. Enquanto Célinho, confinado, e saudoso das “selfies”, ia acenar à varanda da moradia em Cascais, Toni não se fazia rogado e ocupava a liderança mediática.

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  • 22:54 | Quarta-feira, 22 de Abril de 2020
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Dito assim, de chofre e sem mais, parecem os nomes de uma dupla de domadores de leões ou encantadores de serpentes, mas não. Tratar-se-á do nome de uma parelha de acrobatas do grande circo “Portugal”.

Daquela distante festa dos santos populares, promovida pela Rádio Alfa, perto de Paris, ficou para a História a imagem icónica de Toni, prestativo, proteger Célinho da intempérie que se abatia sobre a populaça que rejubilava com tão doce cuidado, abrindo um guarda-chuva onde jazia a palavra “Fidelidade”. Nada de mais figurativo.

Uma imagem vale mais do que mil palavras.

Mesmo que as imagens sejam forçadas e as palavras sejam puras e cristalinas como a água que jorra das nascentes incrustadas nas rochas.

O momento selou uma aproximação. Ficando uns tantos num frenesim ciumento, continuando outros num quotidiano remansado.

Seguiram-se os fatídicos incêndios rurais de 2017, com a inércia, até a insensibilidade de Toni, ao mesmo tempo que Célinho tomava a dianteira das operações e, inconformado, era a voz, quase única, do Portugal democrático.

Depois, vieram arrufos e amuos, o “optimista irritante” e “ele não precisa de autorização para ir onde entender”.

Minudências e intendências.

E, azar dos Távoras, veio a quarentena de Célinho, e o vazio que se seguiu. Enquanto Célinho, confinado, e saudoso das “selfies”, ia acenar à varanda da moradia em Cascais, Toni não se fazia rogado e ocupava a liderança mediática.

Com a recuperação, as presenças nas televisões multiplicaram-se, e até se sobrepuseram, cada um, qual Maquiavel, tentando antecipar-se ao outro, para que este ficasse sem assunto.

Mas sempre civilizados e cordatos.

A política, mesmo que às vezes não pareça, também exige maneiras.

Célinho, sabendo que a direita está fragilizada e a tentar recompor-se, precisa de Toni e do centro-esquerda, para a sua coroação e para as bodas que se seguirão. Toni, sabendo que vêm aí tempos difíceis, precisando do seu respaldo e benevolência, quer Célinho a seu lado. É altura de este lhe retribuir o gesto do guarda-chuva, acoitando-o das pedras que a oposição se apresta para lhe atirar, logo que o Covid emigre e a mortandade acabe.

Mas chegará o tempo em que o palco é pequeno demais para os dois.

Lembrarei, então, a Célinho, as suas sábias palavras, proferidas a 12 de Junho de 2016, em Paris:

“O melhor de Portugal é o povo. O povo é melhor que os políticos”.

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Publicado em Opinião