Resistimos ao mau tempo e à vertigem da certeza da vitória, um vírus que, quando se instala, pode arrasar a confiança dos mais optimistas e deitar tudo a perder.
A controvérsia artificialmente criada por um homem só à volta do adiamento da votação foi um nado-morto. A participação na linha das anteriores demonstrou que a intempérie não afastou os resolutos. A mobilização excepcional demonstrou a vitalidade da nossa democracia que segue o seu caminho, instável, mas que não carece de tutores nem de curadores. Vive por si, com o amparo dos que nela fazem fé.
Os resultados de Seguro, embora em circunstâncias muito especiais, pulverizaram os obtidos por Mário Soares, na sua reeleição, e de todos os outros nas 1.ª voltas anteriores.
Não subscrevendo a comparação, sim, Seguro vale mais do que o PS, mas também vale mais do que a AD e o Chega juntos num molho de grelos viçosos.
Agora seguem-se três anos sem eleições, com todos os pressupostos para uma estabilidade governativa, embora com instabilidade política. Três anos para fazer. O novo PR deverá estar vigilante, particularmente em matérias que não foram a sufrágio no último acto eleitoral para as legistativas. Dispensa-se que seja uma força de bloqueio, mas exige-se que seja um tampão a medidas que configurem um retrocesso civilizacional, a legislação que ameace o Estado de Direito, a derivas autoritárias, a maiorias débeis.
António José Seguro é um homem cordato, dialogante, sensato, moderado(r), ponderado. Sensível a questões sociais. Genuíno, sem artificialismos e maquilhagens. Foi nessa perspectiva que votei nele. Um PR que traz bom senso e equilíbrio à arquitectura do Estado. Que interpreta correctamente as funções que lhe cabem, enquanto mais alto magistrado da Nação. Pois então que não caia na tentação de, em público, ter opinião sobre tudo, um papagaio. De ir a todos os velórios e funerais. De levar as câmaras atrás, quando o apetite o chamar para um gelado.
A palavra de um PR não tem de ser sacralizada, mas também não pode cair no extremo de ser banalizada. É para ser valorizada, e valerá tanto mais quanto melhor for gerida, no tempo e na forma. Deve ser inspiradora.
Os próximos dias dar-nos-ão sinais do que aí vem com as nomeações dos conselheiros de Estado, dos chefes das Casas Civil e Militar, dos assessores, da equipa. Num mundo carregado do simbólico, os sinais contam. Não sendo tudo, são muito.
A votação foi expressiva e com ela são altas as expectativas. Elas são a parte menos boa das vitórias esmagadoras.
No que estamos todos certos é que a política nacional carece de refrescamento. E se o arejamento vier do vértice da pirâmide, maiores serão a adesão e a convicção. No plano da rectidão dos princípios, é assim.
Aguardemos.
Rebelo Marinho