Há várias categorias de pessoas. Uma grosa, uma resma, paletes delas. A modos que na feira do gado muar, das pechinchas e da marroquinaria, cada um escolhe as que lhe servem melhor e cabem nos seus exíguos critérios. É um fartote, não têm conto.
Alguns arrematam-nas pelo melhor preço. Desde que aprendi a observar os humanos e a conviver com eles – já já vão uns bons tempos – tomei como boa esta separação, com a qual me tenho entendido lindamente ao longo dos anos.
Num escoamento convulsivo de gases, encontro, fora da política, da religião, do desporto, a linha divisória clara e distintiva entre as que valem e as que não prestam. Por vezes, só pelos sinais e pela funesta pose de importância oca, aquele compôr de pescoço e o franzir tímido do supercílio. Aquelas são gigantes, virtuosas, estas são velhacas, viscosas, mesquinhas. Tudo isto no meu humílimo e são critério, que se inspira nos astros para me atrever a certezas.
Há as que se assumem, são inteligentes, dizem ao que vêm, travam bons combates, têm bons argumentos, assinam, dão a cara, não desertam; e as outras, as que adormecem à sombra do chaparro, repetem frases que copiam, tropeçam nos verbos, escondem-se nas moitas, falam palavras embaçadas. Padecem da doença de levarem tudo a peito. Uns artistas manhosos e enquistados, que são a voz do dono, o embrulho da encomenda, a banha da carne, torresmos de animal não castrado. Cabecinhas do tamanho de uma bola de ténis, bichas de sete bocas. Ensoberbecem com o eco das suas palavras aselhas. Cérebro cheio de trovões, raios e coriscos. Não me são deletérias, apenas cómicas, jocosas. Rebenta-se-me a barriga de riso com tanto disparate. Dou-me mal com a versão humana da raça asinina.
As dessintonias, quando não são abrutalhadas, nunca foram razão para me afastar das pessoas. Não me dão amarguras nem azia. Não fico zangado, degluto-as com facilidade e sem dor.