Ficou tudo mais claro, apesar da confusão. Depois da intensa refrega, os resultados extremaram as posições. Três dos supostos tubarões afogaram-se nas águas de um oceano por vezes de ondas alterosas e lodosas.
Cotrim mostrou não ter densidade ideológica, e ser muito vaidoso, um simpático distante. Foi atabalhoado, muita parra e pouca uva. De certo modo, um balão que rebentou com uma alfinetada. Não gera empatia. Talvez a meia-idade se tenha deixado seduzir.
O almirante, de conúbio com os muchachos ressabiados de Mendes, unidos numa franca vingança dos excluídos, comandados pelo exorcista Rio, promovido a consciência da social-democracia, sente-se melhor em paradas militares, rodeado de camuflados e continências, tem uma dicção horrível, não olha de frente. A ambição é superior ao lastro. E é cínico.
Mendes, que por dessortes se imaginou um espelho de Marcelo, revelou-se um sub-produto da indústria política e da máquina mediática. Explodiu com o inchaço. Registou uma derrota copiosa, talvez o pior resultado de sempre do PSD, que o apoiou formalmente, e o rejeitou factualmente. A presença de um discreto ministro na plateia das sobras revela o modo feio como foi descartado. Nem o Harry Potter da Invicta, o guru pedante, o estratega da Ribeira, lhe serviu de lenço salvífico.
Para a esquerda mais à esquerda foi uma hecatombe. Os resultados aparentam estar em ruínas, mirrada, no leito de morte. O que fica é um preocupante estado comatoso. A tendência para o definhamento tem vindo a acentuar-se, ano após ano, e talvez a razão deste desencontro com a História reporte a 2015 e à suicidária “Geringonça” que só serviu ao moribundo António Costa, salvo pela mão misericordiosa de Jerónimo, um Homem genuíno, bom e sério. A erosão do PCP, o partido que mais lutou pela democracia e pela liberdade, não é bom sinal.
E na noite fria para compor o ramalhete vieram então os endossos do Livre, do BE, do PCP. Registaram falta de comparência aos envios bentos os ditos tubarões, que, numa humildade de santos e num resmungo disfarçado, arautando liberdade, reclamaram não serem donos dos votos dos seus apoiantes.
Entretanto, não imagino como Montenegro irá gerir o seu prometido silêncio. Serão três semanas de muito ruído, ingerível, diria.
Ventura, que não resiste ao populismo fácil – “vim agora da igreja“, “ainda não liguei à minha mãe” – lembrar-lhe-á que a mudez significa um apoio tácito a Seguro. Que é uma oportunidade única para se afirmar como sendo do espaço não socialista e marcar a fractura ideológica que lhe convém. Que, se ficar nas covas, será ele, André, o líder da nova direita, o profeta dos novos tempos. Arrepio-me com alguns dos seus comportamentos, ameaçadores do Estado de Direito.
O que irá fazer o presidente de um partido fundador da democracia? Perante uma derrota clamorosa, que o deixou em estado de choque, como se irá comportar com aquele que tem como única ambição tudo fazer para o apear e substituir no poder? A candidatura à presidência foi instrumental, um expediente, um modo de estar.
Com a extrema-esquerda em declínio e a direita e extrema-direita superlotada de candidatos, emergiu Seguro, um homem decente, que soube dirigir a campanha, contrariando as ocas e desventuradas predições dos sábios de sempre, distanciando-se sempre de querelas e questiúnculas magras. Na enorme barrela que varreu o PS nestas eleições, António Costa sentir-se-á derrotado. Hoje, será um dia de azias e ressentimentos para o grande negociador. Ágil como uma enguia, rápido encontrará uma saída airosa, de viva voz ou por um dos seus capangas, os que lhe lustraram o caminho e o untaram de bênçãos.
Conseguirá Seguro fazer o pleno da esquerda e conquistar os moderados do centro-direita? E se o não alcançar será o apocalipse? É a dúvida que nos acompanhará ate 8 de Fevereiro. Nas incertezas da política e na volatilidade do voto, sinto-me seguro.
Rebelo Marinho