Por má avaliação, o governo está a deixar que as manifestações sejam percepcionadas como uma questão de ordem pública e não como um problema político. Deixando que assim seja, e porque não se alcança a razão da carga policial, transfere para si a responsabilidade única pelos excessos. Alguma arrogância, outro tanto instinto securitário.
As manifestações não são só legais como também são legítimas. Ao reprimi-las fortemente e ao intimidar os manifestantes com o reforço dos efectivos bem armados está a pretender transmitir à opinião pública a ideia de que há um conjunto de arruaceiros a violar a legalidade.
A questão é estrutural e tem a ver com políticas erradas para a juventude, para o bloqueio que os jovens encontram ao ingressarem no mercado de trabalho cada vez mais precário e mal pago. Vidas sem futuro, horizontes negros, sonhos cortados. As manifestações decorrem desta viagem sem sentido que os jovem vêm fazendo. E nesses trajecto todos os partidos do arco da governação têm culpas, nenhum está imaculado, todos olharam de viés para um problema que, estava bem de ver, mais dia menos dia iria rebentar, explodir nas mãos de quem governasse o rectângulo. Somos muito mediatistas, não temos visão, não pensamos a longo prazo. Preferimos, perante um problema, esperar que ele se resolva por si. Decidir, divide. E os políticos, normalmente medrosos e muito pouco temerários, fogem da divisão, da perda de votos, das críticas da comunicação social.
Rebelo Marinho