A verdadeira força também se mede pelo respeito

A agressividade não é sinónimo de coragem. A violência não é sinal de competitividade. E a falta de respeito nunca deve ser confundida com paixão pelo desporto.

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  • 15:20 | Quinta-feira, 05 de Novembro de 2026
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O desporto precisa de atletas competitivos, determinados, corajosos e emocionalmente fortes. Precisa de pessoas que saibam lidar com a pressão, enfrentar dificuldades, superar adversidades e lutar pelos seus objetivos. Mas será que continuamos a confundir força com agressividade? Competitividade com intimidação? Vontade de vencer com a necessidade de nos impormos sobre os outros?

Há uma ideia que importa desconstruir: um atleta emocionalmente forte não é necessariamente aquele que grita mais, que reage com maior agressividade ou que procura intimidar quem está do outro lado. Muitas vezes, a verdadeira força revela-se precisamente na capacidade de fazer o contrário.

Saber controlar as emoções, aceitar uma decisão com que não concordamos, reagir a uma provocação sem responder com violência, reconhecer um erro ou lidar com uma derrota são também manifestações de força mental. E são, acima de tudo, manifestações de carácter.

A agressividade não é sinónimo de coragem. A violência não é sinal de competitividade. E a falta de respeito nunca deve ser confundida com paixão pelo desporto.


Naturalmente, o desporto é competição. Existe confronto, intensidade, contacto físico em determinadas modalidades, tensão e uma enorme vontade de vencer. Tudo isso faz parte da sua natureza. O problema começa quando se ultrapassam os limites e se procura justificar comportamentos desadequados com expressões como «faz parte do jogo», «é preciso ter raça» ou «quem não sabe sofrer não pode competir». Não, nem tudo faz parte do jogo. E nem tudo pode ser justificado pela vontade de ganhar. É precisamente aqui que a ética assume uma importância decisiva.

A ética desportiva não se revela apenas quando respeitamos as regras ou cumprimentamos o adversário no final de uma competição. Revela-se, sobretudo, nos momentos mais difíceis: quando perdemos, quando estamos frustrados, quando discordamos de uma decisão ou quando sentimos que fomos prejudicados. É nesses momentos que os valores deixam de ser apenas palavras e passam a ser comportamentos.

Não basta falar de respeito. É preciso saber respeitar quando temos razões para estar descontentes.

Esta responsabilidade não pertence apenas aos atletas. Treinadores, dirigentes, clubes, famílias e todos aqueles que acompanham o percurso desportivo de crianças e jovens têm um papel fundamental. Não podemos exigir autocontrolo aos atletas se os adultos à sua volta reagem com insultos, ameaças ou comportamentos agressivos. Não podemos pedir respeito pelos adversários quando, nas bancadas, se desvaloriza quem está do outro lado. Não podemos defender a ética nos discursos e ignorá-la nas nossas atitudes.

As crianças e os jovens observam. Escutam. Reproduzem comportamentos. E aquilo que aprendem no desporto ultrapassa largamente os limites de um campo, de um pavilhão, de uma piscina ou de qualquer outro espaço de competição.

A formação desportiva é também formação emocional, social e moral.

Por isso, é importante que os treinadores não se limitem a desenvolver competências técnicas e táticas. É igualmente necessário ajudar os atletas a reconhecer e gerir emoções, a lidar com a frustração, a resolver conflitos e a compreender que a liberdade de competir termina onde começa o direito do outro a ser respeitado.

Também as famílias precisam de perceber que apoiar um filho não significa alimentar todas as suas reações, justificar todos os seus comportamentos ou encontrar sempre nos outros a responsabilidade pelos seus insucessos. Educar através do desporto implica ensinar que podemos querer muito ganhar sem que isso nos dê o direito de desrespeitar alguém.

E há uma questão que merece ser colocada: que atletas estamos a ajudar a formar quando valorizamos mais a agressividade do que o autocontrolo? Que mensagem transmitimos quando desculpamos uma atitude violenta porque aquele atleta é importante para a equipa ou porque o resultado assim o exige?

Não podemos ter dois critérios: um para os valores que defendemos e outro para os resultados que queremos alcançar. O desporto não perde competitividade por ser mais ético. Não perde intensidade por exigir respeito. E não se torna menos emocionante por rejeitar a violência. Pelo contrário, torna-se melhor.

Não precisamos de atletas menos competitivos. Precisamos de atletas que saibam competir sem perder a capacidade de respeitar. Precisamos de treinadores que percebam que formar não é apenas preparar para ganhar e de clubes que não coloquem os resultados acima das pessoas.

Porque a verdadeira grandeza de um atleta não se mede apenas pelo que consegue alcançar, mas também pela forma como se comporta perante os outros.

A vitória pode medir o resultado de uma competição. Nunca deve servir para justificar a ausência de valores.

No desporto de formação, formar atletas é importante. Mas formar pessoas é indispensável. A ética não se proclama. Pratica-se.

E a verdadeira força também se mede pelo respeito.

 

Vitor Santos | Embaixador do PNED

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Publicado em Opinião