A vara e a gamela

Os criminosos são hoje os heróis. Os bandoleiros e as suas facinorosas quadrilhas são hoje as administrações de países autointitulados faróis da liberdade e da democracia, onde a corrupção já se faz às claras, onde a justiça julga por encomenda...

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  • 22:23 | Quinta-feira, 16 de Julho de 2026
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É absolutamente indubitável que o acesso de semianalfabetos ao poder económico e político acarretou uma grave perda de riqueza e dignidade no plano da linguagem.

G. Steiner, “Linguagem e Silêncio“, Gradiva


 

Tempos de todas as dúvidas e estranhos fenómenos.

De repente, as “pessoas”, começam a bestializar-se e os animais a humanizar-se…

Elas já rosnam, orneiam … não tarda, mordem e escoucinham.

A ferocidade do individualismo e a irracionalidade desmesurada da cupidez gerou estranhos monstros, com particular incidência na política e na alta finança.

Se a sociedade deixou emergir as piores bestas humanas, que queríamos nós? Um Peace and Love II? Ou um remake do Apocalypse Now? Antes a tomada do Capitólio hoje desmentida pelos maga lover’s…

Já viram o espírito de missão da maioria dos pulhas que por aí pulula impado? São os novos egomissionários, gentalha podre, sem escrúpulos, amorais, corruptos, autênticos esgotos de onde só sai a mais fétida imundice…

E falam da Rússia, da Ucrânia, da Palestina, de Israel, dos EUA, da África, do Médio Oriente, da América Latina… aí já perderam a derradeira capa do verniz e do pudor. Já não são hipócritas. São o mal vestido de mal. Aqui são-no mas sob capas de sedoso arminho.

É isto o fim da linha?

Não, o fim da linha vem com a inversão de todos os valores laboriosamente instituídos, vem com a anulação da verdade tal como a conhecíamos, chega com a deturpação de todas as realidades factuais, servidas numa ementa de puro oportunismo e calculismo, apresenta-se vestida de executivo, com fatos escuros de finíssimo corte, com bolsos sem fundo e óculos escuros a ocultar a centelha de cupidez que as rapaces garras não invisibilizam.

Estranhos tempos estes, na presciência de que a nova inaugurada era só trará pior, minados que foram todos os valores, prevalecendo a total ausência deles com um despudor do mais refinado e bestial cinismo suportado nas mais pérfidas formas de comunicação global, alheias de tudo que não seja influenciar a acrítica e maleável opinião pública, moldável como barro húmido, inconstante, volátil, acéfala e tão duradoira nas suas convicções como a corda diária de um relógio velho.

Premonitório Orwell: “Trotando do chiqueiro para a gamela, a vara… sorve sôfrega a lavagem, a cevar-se com a desmesurada e bestial fome de séculos.

Os criminosos são hoje os heróis. Os bandoleiros e as suas facinorosas quadrilhas são hoje as administrações de países autointitulados faróis da liberdade e da democracia, onde a corrupção já se faz às claras, onde a justiça julga por encomenda de quem nomeia os juízes, até dos mais supremos tribunais e onde as fardas de rosto escondido têm licença para assassinar em plena rua, à luz do dia, homens e mulheres inocentes, com toda a impunidade e imunidade…

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Publicado em Opinião