A atitude de Luís Neves em adiar a justificação dos actos menos claros que praticou é ainda a sua matriz policial a funcionar, resquício de quem estava habituado a liderar as investigações e a não ser contrariado, a definir o rumo.
Ainda não interiorizou que o tempo de ser maestro já foi, agora, quando muito, é apenas um regente de orquestra que não se quer desafinada.
O seu papel mudou, e agora é ele que está a ser escrutinado, mesmo que insista na toada tonta de acusar o mensageiro. É tempo escusado.
Quando um jornal publica comportamentos eticamente reprováveis de um governante, é certo e sabido que só mostrou a ponta do iceberg e que, em carteira, tem muito mais para oferecer. Às prestações, a forma de fazer sofrer mais. Desde a primeira notícia que assim é, todos os dias há brindes para os mais curiosos, prémios para os mais esclarecidos.
Pautada pelo seu Rolex, a dilação que o ministro está a impor na divulgação dos documentos na sua posse, é um pouco abusiva, também fruto da moleza da oposição, mais dada a banhos nesta época estival do que propriamente a exigir explicações. Andam frouxos os franco-atiradores de serviço.
Os tempos de esclarecimento de questões sombrias são ditados pela oposição e não por quem tem de responder. Nada disso, porém, obsta a que se tenha tornado num incómodo visível para todo o governo. O modo como Leitão Amaro o descartou, fazendo apenas a defesa de Fernando Alexandre, é sintomático do mal-estar que grassa no Executivo.
Independentemente dos juízos de culpa, há factos indesmentíveis e justificações apressadas, que não calham bem com a ética que é exigida a qualquer titular de cargos públicos. Qualquer político sabe que só há um meio de sair limpo desta trapalhada, e suster alguns danos provocados pelo escândalo que é imparável. No próprio dia, assumir responsabilidades e justificar o erro. Com prova documental, de preferência.
A escolha de outro caminho é sempre encanar a perna à rã.
Rebelo Marinho