Novembro trouxe-nos protestos Em Itália, Alemanha, França, Bélgica, Albânia, Espanha e por aí fora. Os protestos têm mobilizado cidadãos de diversas origens e idades. Por aqui, neste “país à beira mal plantado” em que “o povo é sereno”, a única violência que se viu veio da parte do Estado através da polícia.
Tudo isto faz muito sentido e é lógico que assim seja.
Vivemos num mundo em que o egoísmo é sacralizado e em que o dinheiro é elevado à categoria divina. Quem o possuiu “é melhor que os outros” e a sua acumulação permite não cumprir leis, sendo que os seus detentores têm vontades que se sobrepõem a tudo o resto. Até a sustentabilidade de tudo vale zero perante a sua acumulação pornográfica.
Nesta sociedade que tantos idolatram, há um grupo cada vez mais pequeno que acumula capital e mais capital e mais capital, privando uma imensa maioria das condições mais básicas de vida e de perspectivas de um futuro melhor já que, à descarada, o poder é reforçado e, cheio de bazófia, propalado.
Agora arrastam-nos para um teatro, orquestrado por quem manda, aqui e lá fora, jurando-nos que “vem aí a guerra” e é preciso gastar os recursos da minoria, aqueles que ainda são de todos, os que resultam dos impostos pagos (e os milionários estão naturalmente isentos dessa maçada), na guerra. Isto apenas porque gerará lucros e acumulação nos que fabricam os instrumentos de morte, detentores do capital. Esses que nunca irão combater e que protegerão a sua prole.
As manifestações crescem, engrossadas por gente sem grande coisa a perder, a quem é dito que vivemos em democracia, que temos direitos, que podemos ser ouvidos, que temos a protecção de um “estado de direito” (estado que deixa prescrever ou que não castiga crimes de Ricardos Salgados, Manueis Pinhos, Duartes Limas, etc., etc., etc., ou que permite tendas a uns e não as tolera a “arruaceiros”).
Durante anos a fio protestos e alertas foram, genericamente, ignorados ou respondidos com meras palavras de circunstância enquanto as políticas implementadas apenas agravam, cada vez com maior velocidade, os problemas que afectam a grande maioria. O poder administra-nos produtos lisérgicos como o futebol, o individualismo, a negação do “liberdade, igualdade e fraternidade” e merdas do género, para adestrar quem sofre.
Ignorar e reprimir o que hoje vemos é, para quem não vive alheado nos seus privilégios, inflamar o amanhã. Não reconhecer o garrote que se tem aplicado é fomentar os radicalismos.
Defender o status quo dos poderosos, daqueles que nos agridem diariamente e empurram para a destruição do Planeta e da Humanidade, negando todas as evidencias científicas (e que 2-2 são 4, se preciso for), enquanto se acusam os dotados de alguma lucidez (ainda que possam não ser retoricamente eloquentes) é absurdo, trágico e suicidário.

Alexandre Borges