A depilação feminina é coisa de heroínas…

Aqui há umas décadas, homem que arriscasse ir a um cabeleireiro que não fosse para ir buscar a legítima ou, à saída, a jovem manicura para uma pândega, corria o risco de arruinar uma fama de virilidade muito a custo, punho e pulso conquistada...

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  • 18:46 | Quinta-feira, 05 de Março de 2026
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Uma quinta-feira bisonha. Bom para estar recatado, junto da lareira ou do aquecedor.

A  grande Agustina, em “Contemplação Carinhosa da Angústia” escreve assim sobre um antiquíssimo castanheiro, na vertente do monte Etna “É conhecido pelo castanheiro dos cem cavalos, porque Joana de Aragão, com a sua comitiva de cem cavaleiros, abrigou-se debaixo da sua copa extraordinária.” Já não sobejam árvores destas e nós, homens, perdemos o hábito de buscar seu abrigo. Tamanhinho eu era e bem me lembro de um souto na Quinta das Vigárias, de meus avós, com centenárias árvores dessas em cujo tronco fazíamos toca, esconderijo e abrigo para as épicas brincadeiras de ganapos.

Hoje não me apetece escrever sobre coisas sérias, que só o são na aparência, porque se ligadas à política e à corja de políticos deambulantes mundo afora são pantomineirices do mais rasteiro.


 

Sou (era?) muito fiel a barbeiros e a engraxadores. Os segundos já se extinguiram, os primeiros modernizaram-se, mudaram de nome e ascenderam a cabeleireiros.

Aqui há umas décadas, homem que arriscasse ir a um cabeleireiro que não fosse para ir buscar a legítima ou, à saída, a jovem manicura para uma pândega, corria o risco de arruinar uma fama de virilidade muito a custo, punho e pulso conquistada…

Homem com H tinha barba e se a tinha no barbeiro se cuidava, aproveitando para um caldinho capilar.

Há uns tempos o meu barbeiro de há décadas aposentou-se, pois com a provecta idade já ninguém ousava meter-lhe o pescoço nas mãos munidas daquelas navalhas afiadíssimas de cabos vermelho ou pérola…

Arranjei uma cabeleireira. Senhora de fino trato, subida elegância, que nos convoca via net e nos oferece marrons glacés durante o acto.

No seu decurso, depois de me dar aquelas tesouradas redentoras, mirou-me nas sobrancelhas (que estavam à la Cunhal) e nas orelhas a ganharem o pelo que falta noutros lados (insondáveis desígnios capilares…) e rematou cerce: “Isto não está bem e estraga-me o resultado final!” Nem tossi nem mugi… “Marlene prepare a cera!”, ordenou a uma jovem colaboradora perfilada… E eu encolhi-me, mas não dei parte de fraco. “Acha mesmo necessário?”, arrisquei de débil voz. “Sem dúvida!”, retorquiu-me sem margem de altercação.

Com 6 lestas tesouradas em cada sobrancelha deixou-me a ver melhor e tirou-me aquele beiral de sombra que quase me evitava os rayban, enquanto e entretanto, a rica Marlene lá me enchia ao orelhas encolhidas de uma coisa quente e rosa, que nada me incomodou. Respirei aliviado. Afinal, depilação era coisa de criança…

Mas e de repente, deu-me um sacão na orelha direita que me chamou lágrimas aos olhos e mal ganhei fôlego e zás orelha esquerda repuxada. Já não me lembrava de tal penificação desde a escola primária, com o saudoso senhor professor Martins Pereira.

A Marlene, orgulhosa da façanha, à frente dos olhos brandia-me duas tiras cheias de pelos arrancados pela raiz e oscilava o espelho à frente dos meus pedúnculos auriculares, mais rosa que a bandeira do PS, a brilharem como rabo de bébé.

Custou alguma coisa?“, questionou exibindo os troféus. Engoli um soluço, limpei uma lágrima e tartamudeei “Nada! Amanhã volto de novo!“, que um homem tem que ser um bocadinho fanfarrão, mesmo e se de orelhas a escaldar.

De uma coisa fiquei certo: A minha imensa admiração pelo sexo feminino desmesurou-se a pensar no sofrimento estóico que as senhoritas suportam para ser belas e se depilarem, principalmente em certas zonas do corpo…

Umas heroínas! Mais digo: Umas heroínas!

 

 

 

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Publicado em Opinião