A bola

O homem providencial pregará para os crentes no sermão salvífico. É o tempo das medidas polémicas passarem com poucos reparos e controvérsias. Com as ondas de calor, as férias e os entreténs planetários, pode o governo fazer-se de morto e aproveitar em pleno as circunstâncias bonançosas que os astros lhe depositam no colo buliçoso.

Tópico(s) Artigo

  • 9:07 | Terça-feira, 16 de Junho de 2026
  • Ler em 2 minutos

Durante dois meses e meio vai a política entrar de férias. O Mundial de futebol, mais uma indústria sombria do que um acontecimento desportivo, mais um jogo de interesses geopolíticos do que uma competição leal, vai dominar as atenções dos portugueses.

Antes, durante e depois de a selecção nacional entrar em campo as atenções vão concentrar-se nos mágicos da bola, pagos a peso de ouro, enquanto a carreira dura e os milhões caem na conta bancária.

As expectativas, o foco e o balanço vão ocupar semanas. E se o seleccionado nacional passar a fase de grupos – seria um escândalo se o não alcançasse – então teremos festa por mais uns dias. E se o alinhanhamento pré-feito nos for favorável a esperança continua.


Entre euforias ou frustrações, santos ou diabos, altares ou cadafalsos, a preocupação vai ser a bola, equipas, resultados, classificações e apuramentos. Se seguirmos a tradição os amantes da bola andarão com um terço na mão esquerda e uma máquina de calcular na outra. Cada um à sua maneira, com mais ou menos fervor, vai sentir e vibrar. Se a seguir lhe juntarmos as férias, os banhos de água salgada e os retiros termais, tem folga o governo até Setembro, mês das vindimas e dos cachos sumarentos. O profeta, mesmo sem rumo, cantará os salmos da eternidade.

O homem providencial pregará para os crentes no sermão salvífico. É o tempo das medidas polémicas passarem com poucos reparos e controvérsias. Com as ondas de calor, as férias e os entreténs planetários, pode o governo fazer-se de morto e aproveitar em pleno as circunstâncias bonançosas que os astros lhe depositam no colo buliçoso.

Desaproveitá-las seria inabilidade política grosseira. Um erro pastoso, porém, em que o executivo, para mal dos nossos pecados, e cansado de tanto repetir, não apresenta credenciais de virgindade.

Com o povo anestesiado tem o governo um território plano para percorrer. A sorte, por artes de quiromância e bruxaria, também premeia a inércia, a preguiça e a falta de audácia.

 

Rebelo Marinho

Gosto do artigo
Palavras-chave
Publicado por
Publicado em Opinião