26 de agosto – Dia Internacional da Igualdade Feminina

Quando uma jovem percebe que o seu corpo é mais valorizado do que o seu desempenho, estamos a transmitir-lhe uma mensagem. Quando um rapaz cresce a acreditar que pode determinar a roupa, os amigos, as fotografias ou a prática desportiva da namorada, também estamos a transmitir-lhe uma mensagem.

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  • 17:21 | Segunda-feira, 24 de Agosto de 2026
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Se ele não deixa, ela abandona?

Há uma pergunta que não devíamos ter de fazer em pleno século XXI: pode uma jovem abandonar o desporto porque o namorado não permite que continue?

A resposta deveria ser óbvia. Não.


Mas a realidade nem sempre acompanha aquilo que consideramos adquirido.

Há jovens atletas que deixam de treinar, de competir ou simplesmente de praticar a modalidade de que gostam porque o namorado não gosta que estejam naquele ambiente. Porque não aceita que treinem com rapazes. Porque não gosta do equipamento que usam. Porque não quer que sejam fotografadas. Porque não gosta que falem com determinado colega. Porque entende que a relação lhe dá o direito de decidir.

E quando uma jovem começa a abdicar de partes importantes da sua vida para evitar o conflito numa relação, talvez seja tempo de deixarmos de chamar a isso apenas “ciúme”.

Ciúme não é amor. Proibição não é proteção. Controlo não é respeito.

O problema é que alguns destes comportamentos continuam a ser banalizados entre os mais jovens. São apresentados como manifestações de amor, preocupação ou insegurança. E, pouco a pouco, aquilo que deveria ser uma relação de confiança transforma-se numa relação de controlo.

O desporto pode tornar essa realidade ainda mais visível.

Uma atleta está exposta. Está num espaço público, compete, usa equipamento desportivo, é fotografada, aparece nas redes sociais e, cada vez mais, é acompanhada por uma comunicação social que nem sempre olha para homens e mulheres da mesma forma.

Há atletas que têm denunciado a utilização de fotografias evasivas, centradas no corpo feminino e não naquilo que a atleta está a fazer. Uma realidade que levanta uma questão incómoda: porque continuamos, tantas vezes, a olhar primeiro para o corpo de uma mulher e só depois para a atleta?

No desporto masculino, esta realidade existe de forma muito diferente.

Não se trata de negar a importância da imagem. Trata-se de perguntar que imagem estamos a construir e que mensagem transmitimos a quem está a crescer.

Porque tudo isto educa.

Educa quem fotografa.
Educa quem publica.
Educa quem comenta.
Educa quem partilha.
E educa, sobretudo, quem observa.

Quando uma jovem percebe que o seu corpo é mais valorizado do que o seu desempenho, estamos a transmitir-lhe uma mensagem. Quando um rapaz cresce a acreditar que pode determinar a roupa, os amigos, as fotografias ou a prática desportiva da namorada, também estamos a transmitir-lhe uma mensagem.

E é aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre relações entre jovens.

Passa a ser uma discussão sobre igualdade, respeito, liberdade e educação.

O desporto tem, neste domínio, uma responsabilidade enorme.

Porque o desporto pode ser um dos espaços mais poderosos de aprendizagem social. No treino e na competição aprendemos a respeitar regras, adversários, colegas, treinadores e árbitros. Aprendemos a ganhar e a perder. Aprendemos a trabalhar em equipa. Aprendemos que o outro merece respeito mesmo quando está do outro lado.

Mas há uma condição: é preciso que esses valores sejam trabalhados desde o início.

A ética no desporto não pode aparecer apenas quando existe um conflito, uma agressão, uma discriminação ou um caso que chega às notícias.

Tem de começar na iniciação.

Quando uma criança aprende que meninos e meninas têm o mesmo direito a jogar.

Quando aprende que ninguém deve ser excluído pela sua origem, cor da pele, género ou condição.

Quando aprende que respeitar o outro não depende de ganhar ou perder.

Quando aprende que ninguém é propriedade de ninguém.

Quando aprende que gostar de alguém não significa controlar essa pessoa.

São aprendizagens que ultrapassam o campo, o pavilhão, a pista ou a piscina.

São aprendizagens para a vida.

Por isso, quando falamos de ética no desporto, estamos também a falar de igualdade, não discriminação, equidade, inclusão, respeito e liberdade.

E não podemos exigir aos adultos de amanhã comportamentos que nunca ensinámos às crianças de hoje.

O desporto feminino tem crescido, conquistado espaço, reconhecimento e público. As próprias atletas têm ajudado a quebrar barreiras e preconceitos. O facto de, por exemplo, uma camisola de uma equipa feminina poder alcançar num leilão um valor superior ao de uma equipa masculina mostra que existe também uma crescente valorização do desporto praticado por mulheres.

Mas a verdadeira igualdade não se mede apenas por audiências, contratos ou pelo valor de uma camisola.

Mede-se pela liberdade de uma menina escolher a modalidade que quer praticar.

Mede-se pela possibilidade de uma atleta competir sem ser objetificada.

Mede-se pelo respeito pela sua imagem e pelo seu corpo.

Mede-se pela igualdade de oportunidades.

E mede-se, também, pela possibilidade de uma jovem manter o desporto na sua vida sem que alguém lhe diga que, para continuar numa relação, terá de abandonar aquilo que gosta.

Talvez seja esta uma das grandes responsabilidades de quem trabalha no desporto de formação.

Não estamos apenas a formar atletas.

Estamos a formar pessoas.

E cada treino pode ser uma oportunidade para ensinar alguma coisa que nenhum resultado consegue medir.

Ensinar respeito.

Ensinar responsabilidade.

Ensinar liberdade.

Ensinar igualdade.

Ensinar que ninguém tem o direito de controlar a vida de outra pessoa em nome do amor.

As crianças também nos educam quando lhes transmitimos os valores do desporto.

É por isso que acredito na força do desporto na construção de um mundo melhor.

Não porque o desporto seja perfeito. Não é.

Mas porque tem uma capacidade extraordinária de colocar pessoas diferentes lado a lado, com objetivos comuns, obrigando-as a aprender a respeitar-se.

E talvez seja precisamente aí que devemos começar.

Antes das grandes competições. Antes dos títulos. Antes dos contratos.

Na infância. Porque se queremos jovens que saibam respeitar os outros nas suas relações, talvez tenhamos de começar por lhes ensinar, no desporto, que respeito não é uma palavra bonita.

É uma regra de vida.

E, perante a pergunta “Se ele não deixa, ela abandona?”, a nossa resposta enquanto sociedade só pode ser uma:

Não.

Ela não deve abandonar o desporto.

Ele é que deve aprender a respeitar a liberdade dela.

 

Vítor Santos

Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto

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