0 bailinho da Madeira

A verdade é que se esperava mais de Montenegro. Podia ter feito a diferença, e não fez. Reagiu a destempo, e aos soluços. Mais uma vez, falhou o tiro. Não precisava de grandes argumentos, bastava-lhe ser igual ao que foi, quando, no rescaldo da operação "Influencer", em bicos de pés, pediu a demissão de Costa, que nem sequer era, nem é, arguido.

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  • 15:41 | Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2024
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Montenegro teve, escancarada, uma boa oportunidade para mostrar aos eleitores que é da mesma massa de que são feitos os verdadeiros líderes. De poder ombrear com os que, de todos os quadrantes, deixaram marca. E, como ele bem sabe, não há uma segunda oportunidade para deixar uma boa boa impressão.

Os tempos na política têm um prazo de validade. Normalmente, curto. Os que não entendem assim, devem deixar o lugar, por falta de jeito, ou ficar calados, por falta do que dizer. Montenegro, deslumbrado, parece que não entendeu.

Perante o desembarque de mais de 300 operacionais, inspectores, peritos e magistrados, no aeroporto Cristiano Ronaldo, vacilou. Na presença do furacão que se abateu sobre o arquipélago, varrendo gavetas, estantes, papéis, móveis e computadores, hesitou. Perante os milhares de euros encontrados em dinheiro vivo e em depósitos estranhos, titubeou. Depois da Convenção da AD, e pronto para desfrutar, recebeu um inesperado murro no estômago. Não esperava, ninguém esperava tamanha tempestade, talvez só mesmo os jornalistas, que, gozando de um suspeito benefício, se instalaram na ilha, de véspera, ávidos de circo.

Já constituído arguido, o homem do roseiral teimava em continuar, agarrado, como lapas às rochas das praias de Porto Santo, garantindo querer colaborar com a justiça e estar tranquilo. Um “cliché” que já enjoa. Uns mais, outros menos, já todos fomos embalados por esse estribilho estafado.


Com essa determinação, era um incómodo para o PSD, que não lograva desfazer-se dele. A Montenegro, valeu o PAN, que, fazendo as honras da casa, ameaçou tirar o tapete ao teimoso presidente do governo regional, já pensando no Março do “cubano” Continente.

Depois da saída de Albuquerque, aos trambolhões, e contrariado, da Quinta Vigia, e até ao fúnebre Conselho Regional, que hoje decide pelo nome do futuro dono dos destinos do arquipélago, ouviram-se tímidos e convenientes comentários.

Vem desses tempos um recatado silêncio, revelador de inquietantes estados de alma. A verdade é que, testado na prova do algodão, o presidente do PSD desaproveitou-a, e sujou-se. O marketing do partido, numa tentativa de conter os dados e colar os cacos, fez saber entretanto que Montenegro, nos bastidores, trabalhara afincadamente para convencer Miguel Albuquerque, que, não o esqueçamos, também é presidente da Mesa dos Congressos do partido, a apresentar a sua demissão.

Atabalhoadamente, o histriónico e impagável Paulo Rangel veio justificar o súbito apagamento do PSD com o respeito pela autonomia regional, a mesma que, há poucos meses, não contou para coisa alguma, quando Montenegro se quis apropriar da vitória do PSD nas últimas eleições na Madeira, ainda as hostes laranjinhas sonhavam com a maioria absoluta.

A verdade é que se esperava mais de Montenegro. Podia ter feito a diferença, e não fez. Reagiu a destempo, e aos soluços. Mais uma vez, falhou o tiro. Não precisava de grandes argumentos, bastava-lhe ser igual ao que foi, quando, no rescaldo da operação “Influencer”, em bicos de pés, pediu a demissão de Costa, que nem sequer era, nem é, arguido.

Por muito menos, caiu o Carmo e a Trindade, e pediram-se sacrifícios públicos, sempre com o truculento Rangel a babar-se no microfone, lesto e pressuroso, numa azáfama desigual. Era pois imperativo que o presidente social-democrata viesse a público retirar a confiança política ao arguido Miguel Albuquerque. Sem mais considerações. Só desse modo ficaria com autoridade para esgrimir o espadachim em futuros casos.

Quando, um dia, for chamado a pronunciar-se sobre outros semelhantes, só os seus correligionários, por cega e acrítica disciplina partidária, o levarão a sério. Porque só os sem nervo e sem músculo se refugiam no silêncio, porque só os sem coragem fogem de enfrentar os seus, Montenegro é um líder fraco.

O algodão não mente.

 

(Fotos DR)

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Publicado em Opinião