“O Teatro não suporta a mentira, o ludíbrio, o injusto”

por Alexandra Azambuja | 2018.04.19 - 21:07

 

 

 

A frase, de Miguel Franco, (Leiria, 1918 — 1988) na inauguração do Teatro José Lúcio da Silva,em Janeiro de 1966, foi relembrada num outro teatro de Leiria, muito justa e (e)ternamente, o Teatro Miguel Franco.

 

As 3 pancadas de Molière para o início do ciclo de comemorações do centenário do nascimento de um dos grandes dramaturgos portugueses ouviram-se este sábado à tarde em forma de música. Sala à cunha e a tarde abre-se para dentro com uma extraordinária in(ter)venção do Coro do Orfeão de Leiria. Apanhada de surpresa com a canção do Porvir e o Acordai, fiquei logo de alma estarrecida e lágrimas acesas na escuridão do teatro. A música também não suporta a mentira – ou é extraordinária e comovente – ou não é nada.

Tenho dificuldade em separar o Miguel Franco amigo lá de casa e da família, da figura pública e do autor. Revejo caras conhecidas no maravilhoso filme que foi apresentado, reconheço a Maria João Franco de sempre na artista plástica e filha que homenageia o Pai e nos fala sem rodriguinhos do valor do escritor, dramaturgo, encenador, actor e fico estupefacta com o documentário biográfico de Miguel Cardoso, realizado e produzido especialmente para esta  comemoração.

De repente, num sábado à tarde de província, as Artes mostram-se de peito aberto e olhos claros, numa prova inequívoca de que o Teatro, mas também o Tempo, não suportam a mentira.

É verdade sim, que este enorme vulto da cultura leiriense foi muito além do que a pacata Leiria da época permitia. Por isso mesmo, teve obra censurada tantas vezes. Da representação da peça “O Urso”, de Anton Tchekov pelo Grupo Cénico do Orfeão de Leiria por ele dirigida em 54, ou da encenação, direcção e autoria  no Castelo de Leiria, da “Farsa de Inês Pereira”, em 57, até às “Conversas de 6.ª Feira à noite” no Ateneu Desportivo de Leiria, com convidados e temas muito à frente, como “Principais Tendências Contemporâneas das Artes Plásticas” em 73, ou “Poluição” em 74, a sua pegada artística é vasta, memorável e espraia-se – como é hábito nas criaturas muito criativas – por várias disciplinas.

Dramaturgo censurado, reconhecido e premiado, actor de cinema em mais de 10 filmes, encenador, activista, homem das artes e da cultura, Miguel Franco merece e precisa de um programa educativo para as as gerações mais novas.

Mais, mas muito mais que saber de cor a sua dramaturgia ou enquadramento histórico da obra de Miguel Franco, o perfume da verdade – de que falava em 66 – permanece intacto nas muitas obras que estas Comemorações do Centenário nos trazem: ciclo de cinema a continuar já a 14 de Maio, Leituras encenadas em Setembro e Exposição Biográfica em Novembro.

Para homenagear quem dizia que”a rua era um palco de constantes invenções“, resta-nos assistir ao que o Tempo guardou de tanta rua vivida, tanta invenção sentida, tanta emoção construída. Que viva Miguel Franco!

 

 

Alexandra Azambuja

 

(Foto DR)