O que eu penso da praxe

por Alberto Correia | 2014.01.31 - 19:41

Quando, em 1971, fiz a minha licenciatura em História na Faculdade de Letras de Lisboa, não havia praxe nem se usava capa e batina. Sabendo que ao lado, em Coimbra, tudo isso era de uso. E éramos felizes. Rapidamente integrados na ambiência do espaço da Faculdade, dos seus Auditórios e Biblioteca, do Convívio, a cantina onde fazíamos as refeições e para onde iamos estudar no fim de semana, e namorar no arvoredo do Campus. Fiz o meu curso como trabalhador-estudante. Interrompido pelo serviço militar de três anos, na metrópole e em Angola. Não fui activista, como estudante. Apenas participei, quando podia, nas RGA´s, depois de Maio de 68 que. nessa altura, encontrava-me no Norte de Angola. Lembro, desse tempo, em Angola, o Capitão E. Melo Antunes, esse valoroso capitão de Abril que eu encontrava quase todos os dias, durante um ano, quando, alferes, oficial de informações, fazia o briefing aos oficiais e sargentos nas unidades de S. Salvador, no Sector S. Lembro o capitão que lia livros, lembro a sua humanidade. Lembro o seu papel em 1975. Da Faculdade de Letras, ao Campo Grande, onde gosto de entrar ainda agora, lembro-me desse leque fantástico de Professores que tive a sorte de encontrar e lembro Virgínia Rau, D. Fernando de Almeida, Borges de Macedo, Borges Nunes, Veríssimo Serrão, Vitorino Nemésio, Iria Gonçalves, Maria José Trindade, Maria José Tavares, H. Pais da Silva, e outros. Com dois deles ainda hoje partilho informação e de outros guardo algumas cartas.

Escolhi ser docente do Ensino Secundário. Quis a sorte que tivesse ministrado algumas disciplinas em Estabelecimentos do Ensino Superior. Mas bastava-me ser cidadão da cidade onde resido, Viseu, para assistir a esta teoria de praxe que agora, um infeliz incidente, pôs em questão. Praxe, um fenómeno que ainda, me parece, não tenha adquirido foros de tradição nas recentes Universidades e Institutos Politécnicos. Praxe que, com a justificação de integração dos caloiros, ganhou seus códigos, sua praxis e eu não penso que seja a melhor. E isso disse algumas vezes aos meus alunos quando os vi rebolarem-se na erva molhada, chafurdar na lama ou transcorrerem como vagabundos pelas ruas da cidade com ridículos trajares, coisa que, eu penso, não servia nem a Escola, nem a cidade. E eu lhes dizia que era bem bonito que pensassem noutra forma de integração na Escola e na Cidade para onde vinham, às vezes de longe. Podia chamar-se praxe ou outro nome qualquer. E os mais velhos, em comissão, bem poderiam mostrar-lhes a Escola e o Campus e guiar-lhes os passos pela cidade que agora os recebia, com sua história, com sua identidade, com seus recursos. E as Tunas e os Grupos de Teatro e outras tertúlias cumpririam seu mester nisso ajudando. E talvez alguma conferência integrativa, adaptada à circunstância. E a Oração de Sapiência que eu nem sei se ainda se faz. E tanta coisa mais que eles saberão inventar. E que isto fosse festa. E que os sonhos dos caloiros começassem por ter norte.

Andam agora os governantes do Pais, das Escolas, das Associações, em correria para análise do fenómeno. E eu acho que o fenómeno “praxe” é para analisar em tempo mais demorado e com espírito sereno. Deixem Coimbra como está. É tradição. Como deixaram Barrancos, que assim mandava a tradição, como acontece com os caretos, no Nordeste, que tradição, longínqua tradição ali existe. Que nunca é estática, também, a tradição. Mas as novas praxes, sem o peso do tempo longo que sobre elas não caiu, bem podem transfigurar-se. Basta a boa vontade, porventura. Para dignificação da Escola na sua dimensão total.