Natal!

por Ana Albuquerque | 2015.12.19 - 20:57

 

O meu Natal foi sempre o do Deus menino. Fui batizada no Dia de Natal. Aproveitaram os fritos da véspera e, ainda hoje, as melhores rabanadas são as minhas, que imitam as da minha mãe. Adoro o cheiro da canela pela casa. Deve ter-me ficado desse dia, ainda tão pequenina, já a apreciar a azáfama da quadra.

Pela vida fora, fui colecionando presépios. Tenho muitos em materiais e tamanhos variados. Comprei alguns, outros foram oferecidos por amigos, muitos feitos, de propósito, para mim. Lembro-os todos, mas há um que quero destacar, porque tem uma história de ternura especial. Foi traçado, toscamente, sobre pedaços de madeira, rolos de pinho, cinzelados com arte e sensibilidade. Enfeitou, como muitos outros, os natais dos meus filhos. Foi feito pelo avô. Todos os anos, mudava de lugar dentro de casa. A partir de certa altura, decidimos que o lugar dele passaria a ser a entrada da porta principal. Desta forma, os que chegavam eram logo bem acolhidos e os grupos que vinham cantar as janeiras apreciavam a singeleza das peças. Três troncos apenas. Um busto de mulher, um rosto de homem e um menino esculpido a navalha sobre um deles, que lhe servia de berço. As peças, pesadas, eram colocadas sobre o musgo, as folhas e as carumas molhadas. E o ramo do pinheiro ou do azevinho, escolhido a rigor, era enfeitado com anjos, sininhos, estrelas e luzinhas cintilantes.

Os pequenos habituaram-se a ver a casa enfeitada de presépios e arranjos de natal, durante um mês, e a mesa posta para quem chegava. Figos secos, avelãs, nozes e chocolates não faltavam. Era uma festa! Os preparativos começavam, normalmente, no dia 8 de dezembro. Aproveitávamos o dia santo para ir ao pinhal arrancar, cuidadosamente, mantos de musgo, procurar as pedras, arranjar pequenos arbustos, caruma, folhas, pequenas pinhas e transportávamos tudo no carro de mão. Depois, era uma tarde de azáfama. Era preciso abrir as caixas de cartão, guardadas dos anos anteriores, e retirar, uma a uma, as peças dos diferentes presépios, os enfeites das diferentes árvores, as estrelas e os anjos, as iluminações e as velas….E a minha filha, de cócoras, comigo, a saborear a surpresa, sempre renovada, de mais uma peça esquecida, enquanto, lá fora, o pai cortava o pinheiro, os ramos dos cedros e dos azevinhos.

Uma tarde só não chegava. O ritual durava alguns dias até tudo estar pronto. O meu filho, ainda muito pequeno, não colaborava naquela “trabalheira”, como eu dizia, com gosto, mas colocava todos os brinquedos pequeninos, legos e “pinypons”, no presépio que ficava na sala da lareira. E, desta forma, o menino Jesus estava sempre aconchegado e bem acompanhado.

Hoje, o meu Natal continua a ser o do Deus menino que cresce todos os anos nos nossos corações. E o pai natal que me perdoe!

Feliz Natal!