Viseu e o “barulho das luzes” de um Natal tristonho

por Paulo Neto | 2016.11.20 - 14:12

 

 

Longe vai o tempo de um Natal-Consoada e dia de simbólica e alegre festa da Família.

Os tempos de austeridade vividos de 2011 a 2015, com o roubo do subsídio de Natal a milhões de portugueses, vieram trazer mais algidez e menos festividade à quadra, outrora tão gratificante e calorosa.

Os filhos e os netos emigrados, o forte desemprego local, a fraca reforma de milhares de idosos, a solidão de tantos, a doença de muitos, o desamparo de alguns, os pesados impostos, o roubo dos direitos salariais adquiridos, a perda do poder de compra… pouco deixou para além dos euros para a magra posta de bacalhau que já nem é do corrente, antes do miúdo, com os ovos, as couves e as batatas que ainda (e se) vierem da aldeia.

É uma ceia ainda mais triste que as outras ceias… Porque já foi de alegria e júbilo.

 

O concelho de Viseu tem 99.280 habitantes; a freguesia de Viseu 27.000.

Lisboa tem 530.850 habitantes.

Amadora tem 175.700 habitantes.

Porto tem 230.300 habitantes.

Viseu prevê gastar este Natal 88.000€ com despesas de iluminação da cidade.

Lisboa 700.000€.

Amadora 115.000€.

Porto 137.000€…

Uma fria análise destes meros dados e sabendo nós que a iluminação de Natal em Viseu se circunscreve ao núcleo urbano, ou seja, não contempla as restantes 24 freguesias do concelho, dá-nos proporcionalmente ao gasto por número de habitantes, os maiores gastos de Portugal continental.

Nada que nos admire vindo deste executivo perdulário. Quando essa quantia era esturricada em efémeros 5 minutos de foguetório na noite da Passagem de Ano, subsidiadas, é certo, por alguns bancos, cujas dificuldades económicas são pagas pelos contribuintes… Mas isso é outra história de plafonds e de bizarros protocolos.

Feitas as contas, até nem será muito para vermos o Rossio a brilhar, mas quando a austeridade nos roubou os parcos meios, estas exibições bacocas de um feerismo luminoso serão portadoras de bem-estar real, ou de ofensa aos milhares de viseenses que sobrevivem com salários e/ou reformas de miséria?

É este o investimento em política social de Almeida Henriques? O barulho das luzes e o deslumbramento efémero, que pode agradar ao olhar, decerto, mas não aquece o estômago nem acrescenta um grama à depauperada carteira de quase todos nós?

É que 88.000€ criteriosamente gastos com as famílias mais carenciadas do concelho, sempre daria 88€ a mil agregados familiares… Talvez uma Consoada com alguma fartura para quem tão pouco tem.