Um caldeirão de referventes iras

por Paulo Neto | 2016.11.21 - 10:59

 

 

O UMP (União por um Movimento Popular) é um partido político francês de centro-direita.

Em França, as primárias da “direita”, deram ontem a François Fillon 44% dos votos, conferindo 28% a Alain Juppé e 25% a Nicolas Sarkozy, assim afastado das presidenciais de 2017, deixando na corrida dois outros conservadores.

Ambos têm um longo passado político com exercício de várias pastas ministeriais, Juppé, do RPR (Reagrupamento para República), exercia funções como presidente da Câmara de Bordeaux e foi mesmo 1ª ministro de Jacques Chirac, de 95 a 97. Esteve envolvido em alguns escândalos judiciais, sendo obrigado a deixar a vida política em 2004 por ter sido condenado a 14 meses de prisão com pena suspensa, por apropriação ilegal de bens, o que lhe valeu um “exílio” de dois anos no Canadá, como professor.

Fillon é um “gaullista”, foi ministro e primeiro-ministro no governo de Sarkozy, que agora derrotou, de 2007 a 2012.

Actualmente, o presidente da República francesa é o socialista François Hollande, que cessa o seu mandato no próximo ano.

A esquerda francesa está desarticulada e desunida. Hoje, dividida em duas grandes áreas, “esquerda e centro esquerda” e “esquerda anti-liberal e extrema-esquerda”, compreende no seu círculo político, respectivamente, 10 e 19 partidos, sendo difícil deste vasto leque emergir um candidato consensual, vencedor, até e face ao desgaste do socialista Hollande.

Tudo indica que o próximo presidente da República francesa será um homem da “direita”, com os prenúncios de ontem para uma direita muito conservadora, face ao moderado Juppé. De lado, com resultados pouco encorajadores, parece estar, também, a extrema-direita (FN) de Le Pen.

Por seu lado e em distinta perspectiva política, a chanceler Merkel, chefe do governo na Alemanha, pela CDU (União Democrata Cristã), recandidata-se a um próximo mandato de mais quatro anos, apesar das ameaças eleitorais da direita radical alemã, AFD (Alternativa para a Alemanha).

O cenário de uma Europa nas mãos da direita, na Áustria e na Hungria, com forte crescimento em França, na Finlândia, na Dinamarca, na Sérvia, mas também na Suíça, na Bélgica, na Suécia e na Holanda indicia, fundamentalmente, mas não exclusivamente, 3 causas:

Fracasso generalizado das políticas da EU;

Reacção temerosa às vagas de refugiados, em êxodo dos seus países em guerra;

Uma liberalização da “esquerda” dominante, que se deixou embarcar num retrocesso das suas políticas sociais.

A Europa está a passar por uma radical mudança. Os resultados que fizeram de Trump presidente dos EUA a partir de Janeiro, dão força ao radicalismo de direita face a uma esquerda frouxa, dividida e sem soluções alternativas para as profundas fissuras crescentes, quotidianamente aprofundadas. O vergonhoso “caso de Calais” é disso uma mera evidência. Outra é o “Brexit”.

Por seu turno, o radicalismo de direita esteia-se essencialmente num discurso xenófobo, que seduz eleitores temerosos a quem o terrorismo jihadista deixou em pânico, e que se encontram atordoados com as incógnitas futuras, navegando num populista discurso anti-imigrantes.

Um caldeirão, esta Europa, onde refervem iras velhas temperadas agora com jihadismos e uma “financeirização das economias”, essa arte de fazer dinheiro a partir de dinheiro, sem passar pela esfera produtiva, gerando capital fictício a comandar o capital global, com dívidas soberanas alastrando nas economias mais débeis, nos ditos países do sul, mas não só, com “desastres” sucessivos e de incalculadas dimensões, provocados por uma banca cúpida e sem escrúpulos.

Entretanto, em Portugal, a “geringonça” vai paulatinamente trilhando o seu caminho, com posititivismo e pé seguro. Passos Coelho carpindo-se por feiras e arraiais tem no ex-assessor de Cavaco, César das Neves, um partner à altura do seu desejado “catastrofismo”, rufando atrás o bombo com “As 10 questões do colapso – Portugal: a provável derrocada financeira de 2016-2017”.

Estes “medinas”, porta-vozes do desenfreado neo-liberalismo do partido popular europeu e outros ainda mais radicais, não se conformam com a possível melhoria das condições de vida dos portugueses. Veremos quem tem razão. Os profetas do apocalipse, até e pela apologia da desgraça ganham a vidinha…