Uma tal imprensa… um tal povo

por Paulo Neto | 2017.08.06 - 12:43

 

 

Há dias, mais concretamente na passada 5ª feira, dia de 3 de Agosto, veio-me parar às mãos o CM.

Li-o de “fio a pavio” para tentar perceber o motivo de ser o único tablóide português, em papel, que ainda dá lucro. Goste-se ou não, é feito por “empresários” inteligentes que vêem na imprensa escrita um negócio, não de informação, mas de futilidade e sensacionalismo. Aquilo que a maioria dos portugueses parece querer. E se querem, eles dão.

Octávio Ribeiro, com ou sem escrúpulos, tem um único interesse: dirigir um negócio lucrativo. Tiramos-lhe o chapéu… a este Rupert Murdoch luso, que fez do CM o The Sun, o jornal em língua inglesa mais vendido no planeta, que mistura furos obtidos sabe-se lá como, modelos em topless, escândalos, futilidades, “press-pipole” e, quanto à linha política, um afirmado ultra-conservadorismo, que é coerente com o seu proprietário.

O CM nesta concreta edição tem 48 páginas. O “gros titre” de capa com muito suporte fotográfico é “Avião mata criança e homem”, pontuado de palavras como: “tragédia”, “culpa”, “morte”, “corpos no areal” e etc. e tal.

A “orelha” esquerda trazia a “namorada do CR7” em ousado biquíni, a afirmar “Sou uma mulher de família”. A orelha esquerda, trazia o título: “Mata à facada por ciúmes de rapariga”.

Depois, sobre a “tragédia na praia”… 6 páginas cheias de fotos. Seguem-se duas páginas de futebol e mais duas com os seguintes temas: “Mata irmão à facada por causa de rapariga”; “Criança de quatro anos cai de terraço e morre” e “Padeiro morre em despiste”. Nas duas páginas seguintes pontificam os títulos: “Aceitou desafio fatal por 100 €” e “Menor de 16 anos morre afogado em praia fluvial”, “Tenta matar familiares com faca e tesoura”, “Incendiário cadastrado volta a atacar” e “Procuradora não está sã mentalmente”… e vai por aí fora, com mais acidentes e desporto à mistura até ao caderno de classificados, que são mais 12 páginas extra, com oferta, procura, imobiliários, carros, avisos, curandeiros e “convívio”, secção que traz a oferta de “carne” de norte a sul do país e ilhas – recheada de fotografias sugestivas – e anúncios a comprimidos do tipo super hard, xtrapower, megapénis, etc.

Segue-se mais desporto e politiquice. “Cultura  & Espectáculos”, “Televisão & Media”, mais x páginas de “Vidas de Verão”…

A última página remata com títulos destes: “Mulher detida por pornografia com menores de 14 anos”; “Cobra prestação da casa a dobrar”; “Três fogem de carro em Portimão”; “Cão resgatado de poço”; “Corpo de intervenção em protesto”; “Jovem faz queixa por violação”…

E pronto! Aqui está a “media-fórmula” de sucesso.

Esta equipa trabalha bem, tem um director inteligente, gente “passadora” de info em 1ª mão, no âmbito de acidentes e escândalos e, cereja em cima do bolo, percebeu há muito que a um povo fútil se dão futilidades e que a acefalia e o acriticismo são, como diria Elias Canetti em “Auto-de-Fé” (Cavalo de Ferro) uma consequência da massificação:

Agem e não sabem o que fazem; têm os seus costumes e não sabem porquê; deambulam a vida inteira e não conhecem o caminho: assim é a massa.”