Um país de emigrantes

por Paulo Neto | 2014.08.21 - 10:43

 

 

Migrare em latim significa mudar de morada, deslocar-se.

Mais do que isso, os tempos trouxeram-nos o fenómeno da emigração e da imigração.

Portugal é há séculos um país de “E” e há bem pouco tempo, um país de “I”…migrantes.

Ambos são consequência da necessidade de ir procurar algures o que a “terra-pátria” não dá.

Podemos ver no Cinquecento e nas “Descobertas” marítimas uma componente, também de aventureirismo, gesta, fé… Mas, fundamentalmente e afastando-se do espírito inicial, os Descobrimentos foram uma empresa muito materialista que fez dos portugueses e dos espanhóis uma espécie de piratas internacionais que mudaram a economia e o rosto do mundo. Honra lhes seja devida.

Há uma parte da emigração portuguesa que resulta da necessidade de povoar as colónias, sendo a colónia um grupo de indivíduos fora do país de origem.

A emigração foi muitas vezes fruto de pena judicial. Por exemplo, o degredo durante muito tempo para Angola. Até 1908 para Timor, para onde eram enviados os prisioneiros políticos, republicanos, anarquistas, carbonários, etc. Timor era a colónia mais distante e para onde se ia, por imposição, com bilhete só de ida.

A emigração para o Oriente levava o sonho das rotas das sedas, especiarias e muita riqueza. Do Brasil, durante séculos, vieram naus carregadas com as “burras”, arcas chapeadas a ferro, carregadas de ouro e diamantes. O Brasil foi também o país de acolhimento principalmente depois da Independência, em Setembro de 1822. Milhares de portugueses fizeram o Brasil de hoje. A literatura portuguesa está repleta do “português de torna-viagem”, o que ia para enriquecer e voltar. De Camilo a Ferreira de Castro e Aquilino… há milhares de páginas a retratá-los.

Depois da II Grande Guerra pela qual Portugal não foi afectado dada a sua posição de país neutral, a situação política foi-se degradando, as condições económicas deteriorando, a pobreza aumentando. A política de Salazar, se deixou os cofres com ouro, ao povo deu a miséria. O final dos anos 50 e início dos anos 60, tendo Salazar, por vergonha, proibido a onda crescente do êxodo emigratório, nomeadamente para França, levou os portugueses a partirem de “assalto”, clandestinos, sem passaportes que os Governos Civis estavam interditados de emitir, nas mãos de um “passador” que os levava por “trancos e barrancos” até às faldas dos Pirinéus, aí os abandonando à sua sina e sorte.

A França é um país saído da guerra com imensas vítimas masculinas e com uma carência desmesurada de mão-de-obra.  Pau é uma das primeiras cidades a acolher maciçamente milhares de emigrantes portugueses. A sua História está por fazer mas tem muito de heroísmo e mostra, verdadeiramente, a fibra de uma raça. Partiam de aldeias como a Queiriga ou Fráguas e sem nunca terem visto mundo, sem nada saberem do país para onde iam, desconhecendo por completo a língua e a realidade geográfica, sem dinheiro, levando como ferramenta as suas mãos calosas, animava-os a indómita vontade de dar “um pontapé na macaca”. E deram!

Dos bidonvilles à legalização da estadia, obtendo um passaporte em longas filas na noite do inverno parisiense, no XVIº Bairro, Rue Edourd Fournier (Consulado Geral) ou em Toulouse (Pau tinha à época um consulado com duas pessoas que entretanto fechou portas por falta de meios), passaram à obtenção do seu “permis de séjour” e, a partir daí foi uma década de árduo trabalho que já dava profícuos frutos em meados de 70.

A compra de terras na aldeia – associada que estava a ideia de riqueza à propriedade ; a construção da casa; o primeiro Peugeöt 403, depois o 404… O banco onde aforravam sua poupanças e, na década de 80 o papel relevantíssimo que essas poupanças tiveram para uma depauperada economia nacional…

O emigrante da 1ª geração, hoje com 70/80 anos deu azo ao da 2ª geração (50/60 aos).

Em início da década de 80 assisti na Universidade de Poitiers a uma peça de teatro intitulada “Le cul entre deux chaises” que mostrava a realidade do filho do emigrante que não se sentia – ainda – francês em França nem português em Portugal onde, em geral vinha passar o mês de Agosto, arejava a casa com seus pais, ia a Fátima e convivia na aldeia com a família.

Esta 2ª geração deu natural origem à 3ª geração (30/40 anos). São mais franceses que portugueses. Lá estudaram, lá fizeram suas vidas, lá casaram. Vêm a Portugal por uma longínqua saudade, curiosidade e tributo. Têm as casas de seus pais e avôs na aldeia. Já trazem seus filhos (a 4ª geração de jovens e adolescentes), loiros e de olhos azuis num padrão genético distante do primicial queiriguense.

Ainda vêm em Agosto. É o apelo de uma Pátria que lhes foi avara e recusou aos seus ascendentes o pão-nosso-de-cada-dia. Aproveitam, fazem praia, gozam as festas, convivem com avoengos e família de cá. Passeiam… Já são mais turistas.

Há uma longa História por fazer. A História desta emigração dos anos 60.

Outros vêm mas já não pertencem a esta realidade, são mais as novas gerações de emigrantes deste século XXI, os nascidos ainda em Portugal, da faixa dos trintas.

E hoje, em 2013/2014,emigra-se para a Suíça, a Alemanha, a Grã-Bretanha, a Irlanda… Emigra-se para Angola e para Moçambique. Uma nova realidade… Passos Coelho mandou as dezenas de milhares de jovens licenciados e desempregados emigrar. E eles foram…

 

Três notas finais:

Não refiro aqui a migração, por ser interna. Ler Saramago, por exemplo em “Levantado do Chão” (1980) é perceber o fenómeno e saborear uma das mais fantásticas obras do tardio neo-realismo português.

Há quem chame de “diáspora” a este movimento ou deslocação de dentro para fora. Vem do grego e com o significado de dispersão. Somos um país disperso pelo mundo e com muito por contar…

Este editorial é uma abordagem incipiente do tema. Não pretende ser mais. Mas também um singelo tributo e um apelo a que surjam estudos e teses académicas, consistentes e científicos.