Temos que pensar no assunto. Ou não há electricidade?

por Paulo Neto | 2014.06.21 - 09:41

A mente e a máquina

 

O estudo, “studio”, era antigamente um cuidar, uma aplicação. Depois uma aplicação intelectual metódica para adquirir novas noções, para ampliar ou aumentar conhecimentos. Pesquisar, por se turno, era indagar. Uma inquirição, investigação ou procura de algo.

Hoje, o estudo interligou-se com a pesquisa e a pesquisa, em certos casos, sobrelevou o estudo. Pelo menos, em termos de conceito mais informal.

Como professor, se eu disser ao aluno para estudar isto ou aquilo, encontro frequentemente uma reacção de antagonismo ou aversão ao meu requisitado, à minha solicitação. Porém, se eu pedir para pesquisarem “isto” ou “aquilo”, não encontro repúdio ao desiderato. Além da questão meramente semântica, de associação conceptual, está aqui, embrionária uma noção antitética de conservadorismo versus modernidade, grosso modo.

O livro e o estudo têm séculos de existência. Era a máquina de outrora. Hoje, o mundo actual é dominado por máquinas de todo o tipo e espécie. E o que era outrora e hoje a máquina? A invenção engenhosa, a construção do Universo. E provavelmente, a sua destruição.

Na máquina, e sem o dizer em detrimento do livro que cultivo, há uma relação mais activa, mais física, mais manipulada. Um manejo. No livro existe uma relação mais passiva, mais cognitiva, mais intelectual, mais íntima…

Na actualidade o ser humano não prescinde da máquina para coisa nenhuma. Lembra-me o anedótico caso ocorrido comigo mesmo, quando, um dia de manhã, quis tirar o carro da garagem e por ter faltado a electricidade o comando não abria os portões. De imediato, sem pensar, aceitei que não poderia ir cumprir os meus compromissos porque não acedia ao automóvel para me deslocar. De seguida, recuei duas décadas já refugiadas numa prega da memória e ocorreu-me o primário: fazer a “coisa” à mão. Esquecer o pequeno pirilampo mágico e recorrer ao meu conhecimento básico. Ou então, chamar um táxi…

Por analogia, podemos recordar o tempo de estudar a tabuada e a destreza como fazíamos contas mais ou menos complicadas de cabeça, raízes quadradas elementares, regras de três simples, etc. Hoje, se perguntarmos a um adolescente-tipo, de chofre, quantos são 9X7… Ele terá, em geral, muita dificuldade em responder. Porquê? Porque o seu aparelho cognitivo foi substituído pelo comodismo infalível da máquina. Porque o estudo perdeu terreno face a uma pesquisa incipiente em qualquer telemóvel.

Aqui, ergue-se outra questão: o acessório e o essencial. Para que hei-de encher o meu cérebro do primeiro quando apenas careço do segundo? Mera falácia. No nosso cérebro, essas categorizações complementam-se e atingem um festim no culminar dos variados potenciais. Os inputs?

Grosso modo, a minha “hipo tese” é simples: o homem concebeu a máquina para substituir as capacidades elementares do ser humano. A máquina como facilitador funcional – e porém, quando olhamos para as monumentais pirâmides egípcias, para as grandes catedrais góticas… Hoje, há-as com competências inigualáveis no homem. E a saber dialogar de “tu-cá-tu-lá” com elas existe uma mão de “arquitectos do divino”. Esses serão os dominadores de uma humanidade que se esqueceu de pensar, que recusou a imensa racionalidade com que foi dotado e se cingiu ao abstruso de se sujeitar a um engenhoso chip.

Contudo, nesta era estranha, o homem farta-se de agilizar o corpo com toda a espécie de exercícios. O seu culto. E quanto à mente?

Daí, a manipulação… Dali, o carneirismo. Daqui, a massificação. O homem e o seu logro em toda a plenitude.

E se logro foi fruição, é também burla, dolo ou embuste.