Tal xadrez…

por Paulo Neto | 2015.09.09 - 23:45

 

 

 

Não me apetece escrever sobre debates políticos. Há comentadores como o Relvas a fazê-lo…

Mais importante seria reflectirmos um pouco sobre a amoralidade da época em que vivemos por actos dos seus protagonistas. E porém…

Os conceitos vitais alteraram-se profundamente. Na era mediática que desproporciona a imagem à grandeza icónica de altar, os “santos” usam uma linguagem arredia da virtude, avessa à verdade, concubina da mentira.

E porquê? Porque são cientes de que as inverdades amplamente difundidas se tornam verdades comummente aceites pelo acriticismo das massas.

E contudo, essas massas estão tão profundamente ofendidas com os sucessivos ultrajes de que são vítimas que, se fosse na França — na França não de Sarko&Pen&Hollande — de 1785, a cambada, em geral, acabava na guilhotina. Aqui e hoje, erguem-se no desprezo.

A insensata desfaçatez, o despudorado cinismo, o lúcido ilusionismo ecoado pelos milhões de câmaras e microfones assemelha-se a um Fado antigo, do Marceneiro, da Hermínia, da Amália, trauteado nas vielas de Alfama, nos cotovelos do Bairro Alto, nas subidas da Mouraria, cheio de atridas desgraças entoadas em tom menor, dolente, carpido e húmido de lágrimas e água ardente (não o são ambas?), a mimarem um retrato desfocado, a preto e branco das paixões e das traições.

Do mundo, afinal, onde se movem mailos carneiros que os seguem.

Esse mundo que muda brusco. Onde os homens mais mudam ainda. Dançam ao som de um charivari de bordel, eunucos, de ideias tão flácidas quanto voltigeantes no carrocel da gaiatada deslumbrada.

A época… os homens… que dramático palco este onde nada é o que parece nem coisa alguma parece o que é. Onde até a linguagem tem tiques de fanada e velha prostituída nos serralhos de Istambul…

Ah, o debate? Foi bonito, pá…