Sócrates e Laio, Costa e Édipo

por Paulo Neto | 2014.11.23 - 13:42

 

 

Vamos lá a encarar os factos com realismo… Ninguém está acima da Justiça. Ninguém deve ser imune a actos dela lesivos. Ninguém pode ficar impune na sua prevaricação.

Num país de clubismo, há os adoradores de Sócrates e os que o odeiam. O mesmo acontece com o Benfica e o Sporting.

Se Sócrates foi detido, não o terá sido por faltar à missa dominical das 11H. O magistrado com o caso em mãos não é um kamikaze. Terá, decerto, provas sustentatórias da sua decisão.

Questionar o modo como foi detido e o bruáá não leva a nada. Talvez, como na tragédia grega, haja uma moral e uma catarse.

(As relações com o Grupo Lena estão envoltas numa nuvem de opacidade. Ainda me lembro quando esse Grupo, colateralizando-se e expandindo-se, tentou ser o dono da comunicação social regional portuguesa, para e poucos anos depois, com a chegada das “vacas magras” vender tudo por tudo por 1 simbólico euro. Em Viseu tivemos a Rádio no Ar e o Jornal do Centro. O Jornal do Centro que, três anos depois volta a ter Francisco Rebelo, administrador da Lena Comunicações, como sócio da estranha tróica criada com os Joões, o Rebelo e o Cota.)

Para António Costa este aniquilamento de Sócrates pode ser a salvação e a libertação de uma maldição impendendo sobre o porvir. Uma espécie de complexo de Édipo desconstruído. Édipo mata Laio, seu pai. A hybris, no seu desafio, ultraje aos deuses e ao establishment foi cometida por Sócrates. De peripécia (peripateia) em peripécia o desfecho chegou. A catástrofe concretizou-se inevitável (agnórise). As hostes socialistas, neste intempestivo clímax vivem seu pathos ou sofrimento. Mas, ao mesmo tempo, exterminam a pior sombra sobre eles pairando. Com a queda do ex-primeiro-ministro caem os socratistas. Costa está enfim livre. Se souber ler Sófocles e entender a tragédia de Tebas, cimentando-a com “Hamlet”, de Shakespeare e ainda com Freud e “O Complexo de Édipo”, não terá que furar os seus dois olhos horrorizado com a visão dos factos desencadeados. Pelo contrário, liberto de Laio, ciente de que não o matou porque este Laio há muito tentava o seppuku ou haraquíri, tem a oportunidade de se desembaraçar de toda a influente malignidade e de reinar como homem livre.

E para os políticos, em geral, fica uma moral edificante que lhes sussurra insistentemente aos ouvidos: amanhã poderei ser eu o preso!