Ser professor e pagar para trabalhar

por Paulo Neto | 2014.09.30 - 10:29

 

Está Setembro chegado ao fim. Indeciso, este Outono, apresenta-se numa alternância arreliadora de meteorologia diferente daquela a que sempre nos habituáramos. A Natureza fartou-se de ser abusada e começa a reagir, de forma tão imprevisível que nos deixa num desconcerto. Não tardará um decénio que não façamos praia em Novembro ou Janeiro e, em Julho, Agosto durmamos com o cobertor de “papa” nas nossas camas…

Ontem, por acasos do destino, encontrei uma ex-aluna do Instituto. Fico sempre contente com estes encontros e com o desfiar de memórias de há duas décadas. Depois do irreprimível abraço, a sadia curiosidade de quem cuida no futuro dos seus discentes-amigos (e são, felizmente tantos!). “Depois da licenciatura, fiz o meu mestrado na UA e o doutoramento na U de Salamanca…” e depois? perguntei satisfeito. ” Casei. Com o Y que também foi seu aluno. Temos 3 raparigas e um rapaz. Vivemos perto de Seia. Tenho andado estes anos todos de Ceca para Meca e ele igual. Temos anos que não ganhamos para as viagens nem para as rendas de alojamento. Mas persistimos. Somos professores por gosto, não por recurso. Este ano fui colocada a 210 quilómetros de casa. O horário não é bom. Saio de casa todos os dias às 06H30. Deixo os meus filhos ao avô que os vai levar ao Jardim e à Escola e faço-me à estrada. Chego às 09H30. Almoço na cantina. Aproveito os tempos livres para trabalhar na biblioteca. Saio por volta das 17H30, em geral. Faço-me à estrada. Chego a casa por volta das 20, 20H30. Vou buscar a pequenada, fazer o jantar, estudar com eles, brincar, falar. Às 22H00 estamos todos a “nanar”…” E o Y, arrisquei? “Foi colocado em Bragança, alugou um quarto, vem à 6ª feira. Temos o sábado e o domingo todo para nós e para os filhos.” E como consegue essa jovialidade toda? ” Não podemos desistir e deprimir não é solução. A única coisa que me custa é que depois de ser colocada a 210 quilómetros de casa, surgiram dois horários completos do meu grupo, um a15, outro a 25 quilómetros…” E quem os vai ocupar? “Não faço ideia! Ao que apurei ainda estão por preencher… e eu a gastar 750 €/mês só em gasóleo, pago para trabalhar…”

Esta é uma realidade do país que temos. De um ministro pouco competente e de um ministério indiligente. De um governo alheio a todas as realidades humanas e sociais que não consegue fazer nada de jeito ou bem feito. Seja em que sector for. Um ministro que pede perdão com a boca e asfixia com as mãos. Um ex-maoísta convertido que era bom a escrever em blogues o oposto do que fez na prática governativa… Uma calamidade. Mais uma, porque um medíocre como Passos Coelho só de sofríveis se consegue rodear…