“Restritividade bancária” ou alargamento dos cordões à bolsa em “solidariedade social”?

por Paulo Neto | 2014.12.26 - 13:57

 

 

Todos sabemos que pio é devoto, religioso, dado à caridade, benigno, compassivo, misericordioso… mas o que é que isso tem a ver com o facto do mutualista Banco Montepio Geral, naturalmente através da sua direcção regional de Viseu (ou da nacional), ter contribuído com 75 mil euros para as festas de “Viseu Natal Sonho Tradicional“, da Câmara Municipal local, para dar corpo, entre outros, à festa com os 360 jactos de água, à festa durante 35 dias e à festa das 275 mil luzes que vão naturalmente proporcionar muita beleza, iluminar muito lar e aquecer muito estômago.

Este tipo de patrocínios insere-se no plano normal de actividades da instituição, em matéria de promoção, publicidade e marketing?

Qualquer instituição pública ou privada pode candidatar-se a ser patrocinada pelo Montepio Geral em matérias deste âmbito e natureza?

Quais são as contrapartidas exigidas e contratualizadas, ou não há e estamos no âmbito da filantropia pura?

Qualquer autarquia das 308 de Portugal, independentemente de ser laranja, rosa ou vermelha, será “ouvida” se recorrer ou se candidatar a um patrocínio deste montante e dimensão?

Há critérios para a candidatura a estes patrocínios? São publicitados? Onde?

Dentro da “blindada” contabilidade do município, onde se insere esta rubrica? Nos donativos?

Que opinião terá disto o IGAT? E o Tribunal de Contas? E o Banco de Portugal?

Aqui fica um punhado de questões. Responda quem souber.

Recordamos que em Julho deste ano, o Montepio Geral assinou um protocolo com a EPMS (Escola Profissional Mariana Seixas) e o Município de Viseu para que o banco cedesse de arrendamento instalações suas à escola, comprometendo-se a autarquia “a zelar pelas condições de estacionamento e acolhimento na zona histórica.”

Terá sido este facto o primeiro passo para o estreitamento relacional entre a câmara e o banco? Por intermédio da EPMS?

 

Não obstante este conjunto de excelentes práticas inseridas num vasto espectro de grande “dimensão solidária” (segundo a SRU), no passado Abril, a comunicação social nacional noticiava:

“Montepio passa de lucros a prejuízos. Banco regista perdas de 300 milhões em 2013”

Além disso, podia ainda ler-se em comunicado do banco o seguinte:

“O período de dificuldades orçamentais, económicas e sociais que o país enfrentou em 2013 continuou a afectar os níveis de confiança e a situação financeira das famílias e das empresas, o que favoreceu comportamentos de ajustamento, com maior poupança por precaução e menor consumo, mas, também provocou um agravamento das condições financeiras a níveis críticos. (…) A conjugação de todos estes efeitos determinou condições de grande restritividade às instituições bancárias e um reforço das provisões e imparidades para risco de incumprimento de crédito, com um impacto muito negativo nos resultados do exercício de 2013, que atingiram -298,6 milhões de euros, em base consolidada.”

 

Felizmente para todos nós e ao que parece, as dificuldades foram superadas e a “grande restritividade imposta” é já coisa do passado…