Aquilino decerto seria um acérrimo inimigo do Acordo Ortográfico…

por Paulo Neto | 2014.12.27 - 11:26

 

 

 

“De pena na mão, procuro ser independente, original, inteiriço como um bárbaro”; “sejam originais, iconoclastas, anti, o mais anti que puderem, e verdadeiros, fugindo aos velhos caminhos trilhados.”

 

Estas duas citações de Aquilino são, respectivamente de 1958, proferida na Academia de Ciências de Lisboa e de 1963, pouco tempo antes da sua morte, em Maio desse ano, na Sociedade Portuguesa de Escritores. Não são contraditórias e, se a primeira remete para a não contaminação da sua escrita, por exemplo pelos galicismos de um Eça que ele nunca admirou, sendo um fervoroso apreciador de Camilo, ou pelas estéticas vigorantes nas diferentes escolas, acresce também o classicismo e o vernáculo que cultivou, numa acepção etimológica muito cuidada e acentuada. A segunda prende-se mais com o conteúdo da obra e a inovação, em desprendimento total das escolas velhas ou vigentes, cópias do pioneirismo europeu de 1910 a 1960…

 

Ontem, pela milésima vez, num círculo fechado de professores e filólogos, a conversa amena de Natal degenerou para o fatídico Acordo Ortográfico de 1990… Tal como em Bizâncio, a discussão do sexo dos anjos não reuniu consensos, o AO tem os seus adeptos e os seus inimigos figadais. Pertenço a esta última equipa.

Em brevíssima resenha, o AO teve como objectivo criar uma ortografia unificada para o português a ser usada em todos os países de língua oficial portuguesa, ou seja, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e S. Tomé e Príncipe. Timor Leste aderiu em 2004.

No universo académico da lusofonia também as opiniões divergiram. Vasco Graça Moura — por quem tenho admiração — foi um feroz crítico do Acordo. Justificava assim:

“O reconhecimento oficial de grafias duplas e múltiplas enfraquece seriamente a unidade da língua portuguesa escrita e vai mesmo contra o conceito de ortografia”. Mais referia que “a ideia deste acordo tinha partido do presidente brasileiro José Sarney e para servir interesses geopolíticos e empresariais brasileiros em detrimento de interesses inalienáveis dos demais falantes de português no mundo.”

 

Hoje, 24 anos depois, mesmo e com a intervenção governamental e obrigatoriedade “à força” na ortografia institucional, o acordo vive num coalhado estado de banho-maria, havendo quem se recuse, intransigentemente, a aceitar, acatar e sujeitar-se às regras autocraticamente impostas. Sou desses…

 

Aquilino, o nosso beirão ao mundo dado, decerto seria contra. Permito-me lembrar aqui um texto assertivo e premonitório publicado na Revista Beira Alta, em 1943, sob o título “Beira Alta – Notas Etnográficas” na parte em que abordou a língua beiroa:

 

“Fala-se ainda na Beira uma língua viva, buliçosa e branca como a água que sai da rocha, que deve entroncar em Fernão Lopes, passando por cima de renascentistas, trabalhadores ao tôrno, e de toda a casta de literatos que se venderam à francesia. É cheia de expressões admiráveis, breves e directas, a traduzir o movimento, a cor, e os estados de alma. Tem o horror do esdrúxulo, numa tendência louvável à facilidade e ao bom gosto vocal. Obstina-se em despeito de mestres e gramáticos em dizer tempera e azafama. Pronuncia o x à maneira galaica xave, xão, como estava na índole primeva. Acabará por desbotar, extinguir-se, e converter-se no idioma pilho, compósito, que para aí se fala, e se tornou oficial mediante a cumplicidade da ciência lexicológica. Se por um retorno do escrúpulo se quisesse salvar a língua de bastardias desonrosas na sintaxe e de intromissões verbais desnecessárias haveria que chamar um desses labrêgos da Beira Alta e pô-lo na Faculdade de Letras a falar do cebolinho, do codo, da tosquia das ovelhas, da natureza e do mundo que tem dentro de si, em suma, haveria que dar a ler aos candidatos a mestres o livro imenso, vernáculo, português de lei, que é um desses beirões de tamancos e polainas de junco.”

 

Não sei qual a opinião do estimado leitor… mas este texto do nosso Mestre é um tratado de boa e lógica razão. Não acha?