Quando perder por centímetros pode ser melhor que ganhar por milímetros

por Paulo Neto | 2015.10.07 - 12:59

Ninguém gosta de perder. Em tempos, perder, até significou “ruína”. Que é o contrário, também, de prosperidade. Um perdedor é alguém que viu o seu projecto recusado, rejeitado, não vencedor. Sem derivações semânticas.

Costa perdeu as eleições legislativas de 4 de Outubro. Perdeu Costa e perdeu o PS. Um PS que concorreu a elas em semi-perdição e com uma divisão interna de 70% – 30%.

Costa não soube suplantar essa ferida. Agora, esses 30% que contribuíram para a derrota (e Viseu tem vários, às claras e camuflados) pedem a cabeça do secretário-geral. Um direito, se bem que algo insidioso.

Em boa verdade, não percebo nada de política partidária, entendendo até que é um território lodacento, inquinado por muito mequetrefe que há muito perdeu o decente sentido de missão política para se arrimar, exclusivamente, ao significado de oportunismo político. E para isso basta olhar para muitos dos ora eleitos por Viseu.

Defendo – peregrinamente, aceito-o – que foi melhor a António Costa ter perdido por pouco do que ter ganho por pouco. Na primeira hipótese estava hoje a cozer em lume brando num imenso caldeirão onde o fogo era avivado pelo PSD, pelo CDS, mas maioritariamente, pelo próprio PS, cheio de chagas vivas e purulentas.

Perdendo por pouco e perante o cenário de Coelho&Portas não terem obtido a maioria, ao não se demitir e ir à luta, devendo promover um congresso para explanar a sua estratégia, tornou-se o fiel da balança política portuguesa.

Oxalá saiba interpretar a voz da esquerda e fazer as alianças imprescindíveis com o PCP e o BE…

O presidente da República, no seu afã serventuário, fez ontem um triste papel – já estamos habituados – falando com avidez cronológica aos portugueses.

Por vários motivos, dos quais se destaca o fundamental: atentou contra a Lei das Leis, a Constituição Portuguesa, que jurou respeitar e cumprir. Ao ouvir exclusivamente o seu correligionário Passos Coelho mostrou que é presidente laranja e não de Portugal, porque, determinantemente, deveria ouvir todos os partidos políticos com assento parlamentar, democraticamente sufragados nas urnas, e só depois ir exibir a sua sombria e conselheira figura e trazer o “recado” dos compromissos

Por tudo isto, muito há a reflectir e se Costa pactuar com Coelho&Portas, então, definitivamente refém da direita, deve apanhar o barco para as Berlengas. Com bilhete só de ida.