Quando o futebol pára o país…

por Paulo Neto | 2017.03.05 - 15:05

 

“É indubitável que cada regime possui a sua escrita, cuja história está ainda por fazer. A escrita, sendo a forma espectacularmente comprometida da fala, contém simultaneamente, graças a uma ambiguidade preciosa,  o ser e o parecer do poder, o que ele é e o que queria que o julgassem…”

Barthes, R. “O grau zero da escrita“, ed. 70.

 

 

 

Reconheço não perceber nada de futebol. Em consequência, não ser “praia” onde nade…

Ontem, a pretexto das eleições para a direcção de um grupo desportivo do top3 nacional, o país susteve a respiração, emudeceu sobre outros assuntos, aguardou expectante os resultados.

Forma lusíada de ser e de estar. Um povo que se abstém, acrítico e indiferente, nos sufrágios nacionais que lhes darão governantes por quatro anos, vai em massa votar numa direcção clubística. E depois queixa-se, amargamente e durante 5 segundos, dos males que sofrem.

Isto é um studcase, mas é também, mais do que essa possível e plausível reflexão sociológica, a inequívoca evidência de quão baixo caiu a política e se arrojam de rastos, os políticos, na opinão pública massificada.

Nada de admirativo nestes tempos novos nos quais um dos países mais poderosos do mundo, os EUA, elege um presidente que mal sabe escrever e só consegue escrever correctamente a palavra “hereby” à 3ª tentiva… mas tem, em contrapartida, uma fortuna de biliões de dólares.

Ler aqui:

http://www.jn.pt/mundo/interior/trump-erra-no-twitter-mas-a-terceira-foi-de-vez-5703878.html

Talvez efectivamente se vivam tempos novos. Provavelmente as novas e mediáticas formas de comunicação internáuticas são geradoras de um imediatismo instantâneo (passe a tautologia) assazmente efervescente. Naturalmente, as massas estarão contaminadas por um novo excesso poluidor de híper informação, que as baralha, confunde e afasta, até e porque a neo fauna, mimética e imagética, se centra mais e quase exclusivamente numa acefalia sensacionalista.

E porém, quanta vida existe para além deste espartilho, para tantos tão oportuno…

 

Barthes sobre as escritas políticas: “a escrita tem então a função de reunir com um só traço a realidade dos actos e a idealidade dos fins. É por isso que o poder ou a sombra do poder acaba sempre por instituir uma escrita axiológica, em que o trajecto que separa habitualmente o facto do valor é suprimido no próprio espaço da palavra, dada simultaneamente como descrição e como juízo. A palavra torna-se um alibi (isto é, um algures e uma justificação) (…) intimidação e glorificação.”

(idem ib.)