Portugal das (en)comendas

por Paulo Neto | 2015.06.10 - 12:20

“… num enlevo recíproco se afrontam

por sorriso meio-abraço palmadinha

em número e categoria bem proporcionado

à importância da efeméride que ali os juntou…”

“A Saca de Orelhas” – A. O’Neill

 
Há peitos que engrandecem as medalhas e medalhas que não douram os peitilhos.

A esmo e eito, do fim ciente, Cavaco Silva medalhou 50 portugueses. De bem e não só.

No mesmo ímpeto embarcou merecedores e outros. Desonrou-os por inteiro.

Lado a lado, peitos da comenda impados, os Franciscos. Balsemão e Lopes, tickets tirado prá parada. O filho do ex-primeiro-ministro e ex-mister-bilderberg, de um país pífio e de uma restrita seita, igualou-se na distinção ao autarca anfitrião e campeão – ão, ão, ão – da dívida lamecense e da (quase) insolvência de dezenas de milhões.

Uma década de Cavaco assim se fina de afogadilho junto ao Doiro, sem saudade nem consenso, num país à O’Neill,

“País engravatado todo o ano

e a assoar-se na gravata por engano.”

 

Um “país relativo” no absoluto das suas assimetrias, pobreza e riqueza, ambas muitas, material e de espírito, acolitado a contra-fé em nome do bardo olvidado, acantonando sotaina e farda à sombra dos Remédios – quase genéricos para o mal da Raça.

 

 

Escreveu a Natália no seu “Fado do Coveiro”:

(…)

“Estremece Aníbal com o pardal fadista

que aquilo é treino para o último regalo:

escaqueirar o reinado cavaquista

e sobre a tumba, por fim, cantar de galo.”

 

E Alexandre, em “A História da Moral”

(…)

“Você tem-me cavalgado,

seu safado!

Você tem-me cavalgado,

mas nem por isso me pôs

a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;

outra quem está a montá-lo.”

 

Tenha um excelente Dia da Raça, das Comunidades, de Portugal e de Camões!