Porque hoje é Natal…

por Paulo Neto | 2013.12.25 - 00:11

… apetece-me lembrar aquele belo texto do poeta David Mourão-Ferreira, “Ladainha dos póstumos Natais”:

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

inCancioneiro de Natal

Mas depois, ocorre-me outro texto, dele também, mas mais “moderno”, “Natal up-to-date”

Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da Lua
Rainhas de beleza vêm de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa e passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco

inCancioneiro de Natal” (1971).

Ambos são tristes, pessimistas e sarcásticos, trazem-nos realidades da qual, iludidos, nos vamos arredando…

Ainda assim, é Natal, dia de Natividade – como se chamava minha saudosa avó paterna – e vamos tentar ser mais positivos (se nem o tempo ajuda…!).

O facebook e outras redes sociais por muitos defeitos que tenham e muitos nomes que lhes chamem, até mesmo causa de grandes desgraças, tsunamis e polémicas separações, está aí e, além de ser uma companhia é, também, uma arma que os governos (ainda) não controlam.
Eficaz e barato, virtual e pródigo, global e singular, tornou-se ferramenta para muitas “avarias”. Sendo a maior, talvez, a de colmatar um dos maiores males do século: a solidão.
Ali, temos a sugestão, a impressão de não estarmos sós. O calor da multidão. Impressionante século que nos reconforta com a ilusão…
Critica-se muita coisa nele. O compadre Zacarias costuma dizer que é como um carro veloz: é preciso ter mãos para o conduzir; tanto anda devagar como depressa…
Critica-se a publicidade do privado. Mas não vivemos nós no mundo consumista onde a pub assume foros de ciência semi-sagrada?
O foro privado, hoje, é sempre aquilo que nós quisermos dele fazer. Quem nos diz que aquela confissão é a verdade, ou como Pessoa escrevia: “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente“…?
Todos nós podemos enunciar a nossa interioridade – o que é salutar num tempo em que as pessoas têm medo de olhar para dentro – sem abdicar da nossa intimidade, o fundo do fundo de cada um…
Em torno de tudo isto criou-se uma imensa nuvem de ruído. Aceitemos, sem delongas, o carácter demiúrgico que aqui possa existir e afastemo-nos das perfídias mal-intencionadas que por lá pululam, como também, noutros lugares, noutros sítios, noutros pilares sociais e, até no sagrado, que mais não seja na sua mera oposição ao profano — aquele que fica à porta do templo — onde os vendilhões se togam de belo e sereno azul Petrónio…
Preformulemos os desejos do quase Ano Novo – mesmo que não sejam atendidos darão cor à ilusão e cumpriu-se a tradição (passe a rima…).
Feliz Natal!