Os salafrários do costume…

por Paulo Neto | 2016.01.02 - 15:21

Mal refeitos dos milhares de milhões volatizados pelo BPN, pelo BPP, pelo BES, sai-nos o folhetim-Banif o qual, agora, toda a rapaziada implicada parece querer empurrar com a barriga para longe das vistas, distante da responsabilidade e ausente da culpa.

Há neste país algo que transcende a mais básica compreensão dos factos.

Porque é que nunca há responsáveis pelas calamidades económicas? Porque é que os banqueiros que roubaram milhões não pagam por isso?

Porque é que os governadores do banco de Portugal, aparentemente uns tartamudos cegos, surdos e mudos, nunca são penalizados pela sua apatia?

Porque é que os responsáveis políticos, como a ministra das finanças e o primeiro-ministro, se cúmplices de todo o encobrimento do caso Banif, não são séria e judicialmente avaliados no seu envolvimento?

O clima fétido de impunidade vivido em Portugal, acrescido da imunidade dos donos-disto-tudo (banqueiros e políticos) e da cumplicidade dos demais protagonistas, é a vergonha de um Estado de direito e democrático.

Que Passos Coelho, Portas e Maria Albuquerque tenham encoberto verdades hoje inquestionáveis e gravíssimas sobre a situação do Banif porque teriam eleições pela frente, é de uma tão inqualificável gravidade e de um tão desmesurado e vil cinismo, que as palavras nos escasseiam para apodar estes hipócritas envernizados e encapuzados de boas intenções.

Na banca há responsáveis em toda a pirâmide hierárquica. Um funcionário de balcão, ao menor erro, vem para a rua num ápice. Um director, administrador ou o demo que os leve (ao colinho da política)… é aumentado, é promovido, é recompensado com dividendos e mordomias. Passa ao patamar superior… antes de ser secretário de estado.

A desvergonha desta corja tem no conluio político a sua mais acautelada muleta. Quantos vêm do sector bancário para a politica, voltando para administrações uma ou duas legislaturas após, depois de terem cumprido com diligência todos os fretes de que vinham incumbidos, depois de responderem ao caderno de encargos que traziam nas carteiras?

E perante esta roubalheira despudorada, recorrente, sistemática, tornada uma rotina, branqueada na sua sucessividade, banalizada, infecta e pútrida, porque nos devemos admirar que caia para cima do Zé Povo mais um tsunami de milhares de milhões?

Até a enormidade das quantias envolvidas, ao ser de tal grandeza, transforma os números numa inimaginável irrealidade ou mírifica ficção.

Se o Manel rouba 10 porque tem fome, vai preso. Se o Sr. Dr. Manel rouba 1.000.000 é feito comendador e par do reino da monstruosidade consentida.

E já ninguém se indigna? Se ofende? Se sente lesado ou roubado?

Esta seita de salafrários tem, de facto, uma multiplicidade de tentáculos de infinita extensão.

Será este o ADN lusíada?

Seremos um país dividido entre frouxos trouxas e chico-espertos?

Entre tanta gente séria quanto carteiristas de Santa Apolónia?

Entre a complacente indulgência e o regabofe desabusado?

Não haverá forma e modo de lixiviar esta imundície?

Seremos, efectivamente, um país de irresponsáveis caucionados pela brandura?

Ou então, talvez sejamos apenas um povo de asnos, acríticos, iliterados, laxistas, futeboleiros e fadistas…

E fatalmente concluímos, antes de ir ler o Record: “É a vida! Temos o que merecemos… Ó Tóino, sai mais uma ‘loira’ com tremoços!”