Os escroques “modernos”

por Paulo Neto | 2019.12.16 - 14:41

Artur Alves dos Reis, Dª Branca e mais umas centenas deles fazem parte da História da escroqueria nacional.

Porém, longe vão os tempos de um célebre e ficcionado Arsène Lupin, o francês, filho de um ladrão, cheio de “aplomb“, que aos 20 anos seguiu as pisadas do progenitor, tornando-se um carteirista hábil, e mais tarde um gatuno cavalheiresco, charmoso e empolgado, de primeira categoria…

Seria interessante e prodigiosa façanha fazer a história dos vigaristas portugueses dos últimos 100 anos. Uma certeza sobressairia: os últimos 20 anos dariam para um grosso volume…

O maior de todos foi Alves dos Reis, que aos 18 anos já era detentor de diploma que o fazia engenheiro, passado pela inglesa Polytecnhic School of Engineering, de Oxford, que, claro está, nunca existiu e por ele fora forjado.

Mais tarde, falsificar diplomas tornou-se uma prática quase corrente, como corrente se tornou a volatilização dos dinheiros públicos da banca lusitana, para contas e off shores no estrangeiro, por artificiosa arte de banqueiros e políticos renomados.

Ao contrário deles, Alves dos Reis encheu o mercado com mais de 200 mil notas de 5oo escudos. Pena serem falsas, ou melhor, conseguidas com falsificadas assinaturas, mas imprimidas pelo Banco de Portugal. A vigarice com arte e descaro não é para todos.

Os escroques de colarinho branco, nas duas derradeiras décadas, são maioritariamente oriundos da vida política. Indivíduos sem capacidade para singrar na vida como milhões de concidadãos, que se tornaram de súbito “alguém” pelas manobras gizadas nos esconsos bastidores do poder aos quais se alcandoraram.

É comum até ouvir-se que os políticos auferem parcos salários. Que têm dificuldades económicas, ou como referia o já falecido AGP, quando ministro dos Negócios Estrangeiros de Balsemão, que o salário de ministro não lhe pagava os charutos cubanos que tanto apreciava. Certo. Porém todos querem ir para esse mester tão mal pago. Porque será que até se atropelam? Excesso de missionarismo jesuítico? Ou serão ameaçados com um fueiro? Ser-lhes-à apontada uma carabina às costas?

Hoje, a escroqueria, pela sua vulgarização/trivialização, passando de mácula a lugar e praxis quotidiana corrente, já não envergonha ninguém. O escroque, hoje, é quase invejado e tido como um “tipo fino, esperto, habilidoso”. Um “senhor“!

Por isso se cometem todas as vigarices e na calidez dos atapetados escritórios, se corrompe e se deixa corromper com a facilidade com que se muda de camisa, se usam os dinheiros públicos em proveito próprio como se fosse naturalíssimo agir, se fazem associações de criminosos com a ligeireza de uma ida à dominical missa, se usam sofisticadas engenharias financeiras para encobrir o regabofe pululante, se apadrinham e recrutam apóstolos para a procissão e a troco de uma expectativa ou “lugarzinho” serem facilitadores dos embustes, das fraudes, dos logros, se arranjam “cabeças de turco” para rosto visível de algo “legal” que por detrás tem escondidas as cabeças do costume, se erguem fortalezas de impunidade e, da imunidade, se faz quase espalda da certeza.

A brandura dos costumes só no domínio da corrupção efectiva em Portugal, gera um custo superior anual ao do orçamento para a Saúde, estimado em 18,2 mil milhões por ano. E quem paga essa exorbitância? O cidadão comum, sério, cumpridor, trabalhador…

Parte da “coisa pública” foi tomada de assalto por uma mão cheia de “habilidosos”. Para nossa esperança, felizmente que a Justiça não dorme e, paulatinamente, com enorme falta de recursos, vai fazendo milagres e do paraíso dos burlões um purgatório com vistas para o inferno. Abençoados!

Paulo Neto