Os dedos nus dos ricos

por Paulo Neto | 2014.02.07 - 00:01

Em página nobre, de quarto corrido, um semanário nacional propunha em anúncio “avaliações gratuitas de jóias” por parte de uma grande empresa leiloeira internacional. No Porto (terra dos velhos-ricos). Disponibilizavam a sua perita portuguesa. Por marcação prévia, como no dentista. E iam enfeitando o anzol: “excepcional anel de diamante e safira griffée …………………, vendido por X (mais de um milhão de euros).

As “avaliações são gratuitas e totalmente confidenciais”, tranquilizavam.

Pobres dos ricos. Já vendem os anéis, as gargantilhas, os broches, os brincos, as pulseiras… ficam os dedos e as artroses, os pescoços nus de gelha à mostra, os peitos desabrigados, as orelhas despidas, furadas e caídas e os pulsos limpos de algemas douradas.

É o despojamento franciscano…

Este anúncio não era para pobres.

Porque os pobres já vendem as mãos calejadas do trabalho. Algumas, o seu corpo, também. Já foram para penhora, ao Deus-dará, os parcos móveis e os usados electrodomésticos. Irá a casa de seguida porque o senhorio já ameaçou com uma acção de despejo.

O anúncio não era para pobres. Eles nem lêem semanários…

Um anel de diamante e safira… ninguém dá pela falta. Agora o Bentley Continental e o Mercedes Classe S, esses, a vizinhança nota.