O Natal Português

por Paulo Neto | 2015.12.25 - 18:07

 

 

Afoitei mão a um livro nunca aberto, páginas há 71 anos íntegras, cerradas, que tive de sujeitar à arremetida da lâmina. À medida que ia sulqueando caíam uns fiapos encaracolados de miolo de papel, como serpentinas de madeira, arrancadas à folha mãe pelo acerado do gume ou plaina de velho marceneiro…

O Natal Português” tem a selecção e prefácio de Vitorino Nemésio, foi publicado em 1944 sob a chancela das edições Dois Mundos – Portugal e Brasil.

Como escreve Nemésio “Estas páginas de Natal são um breviário de saudade da terra portuguesa. Gil Vicente e a poesia popular deixam aqui o perfume da serra beirã, do pinhal estremenho, da costa algarvia, rochas da Madeira. Fr. Agostinho da Cruz faz-nos ajoelhar na sua lapa arrábida, no enlevo do Deus Menino. Júlio Dinis senta-nos à mesa minhota, faz-nos consoar no meio das esperanças dos moços e das saudades dos velhos. Herculano fala-nos do inverno torrencial. Ramalho, dos presépios de cortiça; Eça, dos lumes das mesas elegantes; Fialho, do Natal alfacinha, dos restaurantes e das ruas. Todos trazem a sua nota própria. Gomes Leal arma o seu Natal com cisternas e terebintos. Ramalho e Feijó desenham comovidamente a Festa das crianças infelizes. Nobre e Augusto Gil deixam de passagem um punhado de versos friorentos… Se D. João da Camara escolhe um Natal de passaritos, Raul Brandão acompanha os pedintes de escola e a mãe velha que espera no lar o filho ausente. Aquilino grava um Natal de paixões campónias e a igreja inóspita, ventosa, que sustenta na terra o Deus Menino. Malheiro Dias conta o drama de um pai minhoto que, derrubado à paulada, não larga da mão a prenda que traz para o filhinho. E todos, de Gil Vicente a Miguel Torga, nos dizem não sei quê de essencial da alma do Português e do seu palmo de chão florido para o Cristo que nasce numas palhas.

 

E se Herculano assim, nuclear, escreve sobre a Missa do Galo…

Pelas moradas dos aldeões, até então escuras e caladas, começam através das portas, cujas fechaduras rangem abrindo-se e fechando-se, a aparecer, sumir-se, subir, descer, aproximar-se, alongar-se, com as exalações fugazes de um brejo lodoso, as luzes que vêm, voltam, giram, param, acendem-se e apagam-se. Depois, pelas quelhas tortuosas, mal-gradadas, estreitas, da aldeia caminham vultos, soam vozes, ruído de pássaros, rir sumido, repreender alto. Os mancebos vestiram para a noite os seus trajos de festa; as camponesas hão-de de vê-los durante a missa, antes e depois dela, à luz das tochas acesas, à claridade incerta do luar…”

…Ramalho, de sua feita o diz:

Nos soutos, sob a chuva que cai mansa e contínua, andam pobres que não têm lenha, a arrancar uma raiz esquecida para se aquecerem. Deus os tenha na sua mão de pai. Partem, chegam, vêm de muito longe, para verem os seus meninos, matando saudades. Quási não comem e sustentam filhos, sustentam netos. Os velhos que têm atrás de si uma vida de martírio e fome, dizem:

— É hoje o maior dia do ano.

(…)

Os pobres são como os rios. Estancam a sede da terra, fazem inchar as raízes e nascer as árvores; acarretam; moem o pão nos moinhos. Ei-la, a vida da terra. Todas as catedrais se construíram da sua dor; sem eles a vida pararia.”

 

E com o nosso Aquilino nos rematamos por esta geografia de tempos idos e tradições olvidadas, aqui, neste excerto, sobre o rabo e duas magras tiras do fiel amigo, a suor regadas:

Florinda preparou uma porção com couve Troncha, bôlo trigo, cebola às rodelinhas, azeite e um dente de alho; ao que estava de fino, nem manjar para mulher parida!

A outra esfiou-a para bolos com salsa e batata, a tirarem para o vinagre, que fariam perder o jejum a um santo. Da açorda atestou Florinda duas almofias, uma para ela, outra para a mãe e o Bispo. E, aquentados do toro de carvalho que estralejava, começou por eles a festa da Noite Boa.

Zunia o vento debaixo da porta, parecendo uma matilha de cães a correr por cima das folhas mortas de um souto. Para as bandas do cemitério, ia uma ladainha nos pinhais, tão alta, tão furiosa, que assim deviam soar os clamores do inferno se lhe destapassem o boqueirão.”

 

E são páginas a fio, assim epigrafadas com o labor dos mestres idos, que hoje nos aquecem com a sua lídima inteireza e nos guiam os sentidos, como outrora os marcos milenares, nas encruzilhadas das vias que a Roma todas iam, nos davam o rumo, o norte e o sul.

Estas arcas de odoroso e fragrante castanho – que “deram sombra aos Moiros” – quando abertas, rescendem a Terra e a uma cera feita dos húmus centenários, exalando o perfume dos picotos nevados, do tojo alvarinho, da urze e do rosmaninho, tinindo a zoeira dos córregos toando laudas a vozes dadas…

E esta escrita, assim hirsuta, galharda, vetusta e limpa é a indómita língua portuguesa, por léguas de andurriais à fueirada tão assaz e tenazmente desancada…