O “mestiço” do Expresso

por Paulo Neto | 2015.10.22 - 10:34

 

Durante anos guardei o nº 1 do “Expresso” que foi um grande jornal, o que é diferente do jornal grande que hoje é.

Periódico do “mister bilderberg” português, fundador do partido popular democrático, reuniu nas suas páginas durante três décadas a “nata” do jornalismo nacional e até internacional.

Há muito deixei de o ler por perceber, na minha interpretação, o seu facciosismo, a sua parcialidade e a falta de isenção. Raros casos à parte de alguns dos seus profissionais, estamos perante um jornal pior que o Correio da Manhã. Este não engana ninguém e edita-se para o seu público fiel da escandaleira e do sangue no asfalto. Aquele, sob a pele de carneiro veste a pele do lobo, caucionando de nobre o real cínico.

Mão amiga fez-me chegar um texto recém-saído onde, num título sensacionalista, se faz uma discriminação racial momentaneamente oportuna de um líder do espectro partidário lusitano, apodando-o de “mestiço”.

Elogios à parte, “mestiço” significa segundo o DLPC da Academia das Ciências de Lisboa “que é filho de pais de grupos genéticos diferentes, misto, mulato, cabrito.”

Obama é “de cor”, eufemismo usado por quem tem medo das palavras. Também o é a mulher do actual primeiro-ministro e até o deputado do CDS/PP eleito por Viseu.

Sempre defendi que a diferença nos completa, nos edifica, nos valoriza. O monolitismo, o unanimismo, o arianismo e outros “ismos” são estigmas com raízes profundas na intolerância, no radicalismo, na tacanhez, na ignorância, no medo…

Esquecermos a nossa História e a nossa presença nos continentes americano, africano, asiático e oceania (o “novíssimo mundo”) é um acto de soez iliteracia. A própria Europa, é hoje um “velho  continente“, que foi gerador de toda a miscigenação e que só se renovará e sobreviverá se a ela aderir e se abrir de sã mente.

Quanto ao resto, pegar numa notícia do Charlie Hebdo onde é referido que “na França (país racista), a cor da pele não foi argumento da campanha” para escrever que o mesmo periódico “elogia o mestiço António Costa”, é antepor ao substantivo um adjectivo qualificativo de onde emerge um colonialismo bafiento, um arianismo patético e uma pureza rácica talvez consubstanciada e oriunda da nossa origem, alana, visigótica, sueva, goda, astrogoda, cartaginesa, romana, árabe, grega, vândala, fenícia e até viking…

Mas é mais. É denegrir um político pela cor da sua pele. E se isto, da minha parte e face ao escrito é um juízo de intenções, pois sê-lo-á. E assumidíssimo.

Parafraseio Aquilino Machado :

“O título do Expresso é desonesto e pouco sério. Ou então, não sabem ler e traduzir francês.”

Reitero, tirando o “ou” alternativo…

http://expresso.sapo.pt/politica/2015-10-21-Charlie-Hebdo-elogia-Portugal-e-o-mestico-Antonio-Costa