O medo de não ter medo

por Paulo Neto | 2016.02.15 - 13:51

 

Dantes, os montes, os vales, os rios e as florestas eram imensos. Eram muitos os peixes, as aves, os animais.

O homem, animal mais desenvolto, deixou de fazer do mundo, em geral, o seu habitat. E de nómada, com as estrelas nos olhos e o infinito nos passos, tornou-se sedentário.

Juntou-se a outros homens, para exorcisar os medos e dar razão e origem à parábola dos vimes. Transformou a sua singularidade em povo. Procriou e cresceu. Fixou-se em castros, citânias e passou a aldeias, acocoradas e desconfiadas no cimo ora ermo dos montes.

Cresceram as aldeias e desceram das colinas às planícies, feitas vilas, feitas burgos. Cedo, porque então o homem, demograficamente era um modelar coelho, surgiram as cidades.

Os montes encolheram, os vales tornaram-se escusos semideiros, os rios, ora porque enfastiados se apressassem para a foz, ora porque o homem os obrasse e lhes secasse nascente e leito, minguaram suas águas, as florestas foram recuando e tornaram-se bosques minúsculos de árvores pueris, que os velhos robles, frondosos, encopados, imponentes, poderosos, não escaparam à rapace cobiça humana, e em breve, se tornaram tectos onde assentaram as tégulas, ou soalhos ripados onde poisavam os pés.

Os peixes migraram para o mar, suicidando-se na imensidão e no sal.

As aves, engolidos os corutos, roubadas as frondes, de seguida, foram enxotadas dos beirais.

Os animais, com suas moradas encolhidas, com a sanha humana e predadora crescendo todos os dias, perdidos seus territórios, extintas suas reservas, decidiram finar-se de saudade, tédio, angústia e dor.

O homem, em cujas matrizes primiciais, existia fauna e flora, inventou gaiolas, aquários, jaulas e domesticou a criação. Primeiro para dela tirar deleitável proveito, como foi fazendo com os da sua própria espécie, depois, para lhes fazer companhia, ao prever em si a perda gradual de atributos, tais como: generosidade, bondade, doacção, fidelidade, altruísmo.

Amanhou pedaços de terra, que apodou de eiras, hortas e lameiras. Desenhou canteiros e criou jardins. Se os primeiros ajudavam à sobrevivência, os segundos, davam-lhes a ilusão edénica, desbaratada e perdida.

As gerações sucederam-se. Com elas, a mais feroz destruição da Natureza. Os novos não a respeitam, porque nem sequer a conhecem. E então, nos seus covis calafetados de cimento e betão, bestializado, o homem, tomou o lugar de todas as bestas outrora existentes. E sem clemência nem piedade, extreminou-os.

Hoje, o homem regredido, recanibalizou-se. Simbolicamente, envilece-se, malevoliza-se, violenta-se, amargura-se e elimina-se, em cada dia que passa.

Rouba. Agride. Mata. E até o faz aos que mais próximos da mão contundente lhe ficam. E então, impado da fútil vacuidade de tão absurdo quanto fátuo poder, começou a ensinar à descendência, numa fera pedagogia, a brutalizar seu semelhante, a desrespeitar o outro, a ser solidário apenas consigo mesmo.

Finalmente, depois de uma dúzia de conscientes atropelos num só dia de labuta, chega ao lar desiludido, desenganado, frustrado. Tomado de inveja pelo rutilante carro novo do vizinho do 1º Esq., mal entra dá um tabefe no filho que, por azar, lhe pergunta quanto são 9 x 3 ou onde desagua o Tejo; vocifera com a velha e surda mãe, que olha, apática, a tv em altos berros; arrota aos caracóis e à cerveja da merenda e chega à cozinha. Porque o refogado está cinco minutos atrasado, afaga a boca da mulher com a costa da mão, cortando-lhe, sem querer, claro, o lábio inferior, enquanto tira uma “loira” do frigo, assobiando uma modinha brasileira.

À mesa, de repente, a seguir ao caldo, lembra-se e diz aos filhos:

–“Atenção, canalha! Muito cuidadinho com os cães que são animais violentos, perigosíssimos e poluidores da Natureza!”

 

(Texto escrito em Agº de 2010)