O medo da falta de medo

Rouba, agride e mata. E até o faz aos que mais próximos à mão lhe ficam. E então, impado de fútil vacuidade de tão crescido poder, começou a ensinar aos seus filhos, numa feroz pedagogia, a brutalizar seu semelhante, a desrespeitar o outro, a só ser solidário consigo mesmo.

  • 16:13 | Quinta-feira, 11 de Junho de 2020
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Dantes, os montes, os vales, os rios e as florestas eram imensos.

Eram muitos os peixes, as aves e demais animais.

O homem, animal mais desenvolto, deixou de fazer do mundo, em geral, o seu habitat. E de nómada, com as estrelas nos olhos e o infinito nos passos, tornou-se sedentário.


Juntou-se a outros homens para exorcizar os medos e dar razão à parábola dos vimes. Procriou e cresceu. Fixou-se em castros, citânias e passou às aldeias, no cimo ermo dos montes.

Cresceram as aldeias e desceram as colinas, feitas vilas, feitas burgos. Cedo, porque então o homem imitava os coelhos, surgiram as cidades.

Os montes encolheram, os vales tornaram-se escusos semideiros, os rios, ora porque se apressassem para a foz, ora porque o homem os obrasse, perderam suas águas, as florestas recuaram e tornaram-se bosques minúsculos de árvores pueris, que os velhos robles, frondosos, pesados, poderosos não escaparam à rapace cobiça humana e em breve se tornaram traves onde assentaram telhas ou soalhos onde poisavam pés.

Os peixes migraram para o mar, onde a imensidão e o sal os engoliram.

As aves perderam os corutos, de seguida foram enxotadas dos beirais.

Os animais, em geral, com as suas moradas encolhidas, com a sanha humana e predadora crescendo a cada dia, perdidos seus territórios, começaram a finar-se de saudade, angústia e dor.

O homem, em cujas matrizes primiciais existiam fauna e flora, criou gaiolas, inventou aquários e domesticou animais, primeiro para deles colher proveito, como fez com os da sua espécie, depois, para lhes fazer companhia, ao prever a perda continuada, nos de seu género, de atributos tais que generosidade, bondade, fidelidade e humanidade.

Arranjou pedaços de terra que apodou de eiras, leiras, hortas ou lameiras. Desenhou canteiros e criou jardins. Se os primeiros auxiliavam à sobrevivência, os segundos davam-lhe a ilusão adâmica desbaratada e perdida.

As gerações sucederam-se. Com elas, a mais feroz destruição da natureza. Os novos não a respeitavam porque nem sequer a conheceram na plenitude. E então, apartados nos seus covis de cimento e de betão, bestializados, tomaram o lugar de todas as bestas outrora existentes. E com crueza, sem clemência nem piedade, exterminou-se.

Hoje, o homem regredido canibalizou-se- simbolicamente envilece-se. Malevoliza-se, violenta-se e elimina-se, em cada dia que passa.

Rouba, agride e mata. E até o faz aos que mais próximos à mão lhe ficam. E então, impado de fútil vacuidade de tão crescido poder, começou a ensinar aos seus filhos, numa feroz pedagogia, a brutalizar seu semelhante, a desrespeitar o outro, a só ser solidário consigo mesmo.

Finalmente, depois de uma dúzia de atropelos, num meio dia de trabalho, chega a casa desenganado e tomado de inveja pelo carro novo do vizinho, dá um tabefe num filho que por azar lhe perguntou onde desaguava o Tejo, ou quanto são 9×3, vocifera com a velha e surda mãe por ter alto de mais a televisão, arrota a pataniscas e ao tinto da merenda, entra na cozinha, e porque a ceia está atrasada, dá uma costa de mão na boca triste da mulher, cortando-lhe o lábio inferior, enquanto tira uma cerveja do frigorífico, assobiando.

À mesa, de repente, lembra-se e diz para os filhos:

— Atenção! Cuidado com os cães que são animais violentos e perigosos!

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