O linguarejar político e o uivo lupino…

por Paulo Neto | 2014.10.28 - 00:01

 

 

 

“Degradar a dignidade da palavra humana reduzindo-a ao nível do uivo dos lobos.”

G. Steiner, “O milagre oco” (ensaio)

 

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança:

Todo o mundo é composto de mudança

Tomando sempre novas qualidades.

L. de Camões, “Sonetos”

 

 

 

Todo o mundo é composto de mudança“. Só os néscios o ignoram. E aqueles que não gostam da mudança são aversos à evolução.

Porém, a evolução, hoje, faz-se a uma velocidade estonteante, mal permitindo que assimilemos adequadamente algo que de novo surge, perante a rapidez da sua desactualização. Nestes tempos, estar desactualizado é fatal. Se os profissionais das mais diversas áreas o têm presente, mais presente o têm os políticos. E um dos instrumentos que eles mais utilizam, a linguagem, é alvo de uma mudança radical. O que, para lá de conceder a tal instrumento um valor inestimável, uma dinâmica tumultuosa, lhe confere, também, uma efemeridade conceptual que, pela apropriação, uso, abuso, afastamento do significante ao significado, desvio, desvirtuamento e ausência de escrúpulos dos enunciadores, a transforma, não já num primordial instrumento de comunicação, mas — paradoxalmente — num objecto básico e flexível para ajeitar às necessidades circunstanciais. Que na boca de muitos políticos são as verdades convenientes, mesmo se porventura mentiras pungentes.

Esta capacidade de alteração do signo — aquilo que significa — ao significado oportuno, concede um carácter regressivo e de abjecção à linguagem, porque a afasta do seu valor primicial e moral da partilha pura de ideias, conceitos, sentimentos…

Hoje, certos políticos, nomeadamente à frente de um microfone e de uma câmara de filmar, preocupam-se pouco com a limpidez duradoura da verdade da mensagem para erigirem as palavras que usam no seu discurso às exigências momentâneas. Mesmo que sejam, apenas, cínicas e oportunistas “inverdades”.

A comunicação de massas e a crescente acefalia e desinteresse dos destinatários — ciente também da desvalorização da palavra neste contexto — transformou a verdade num impune e leviano discurso de mentiras ao sabor das conveniências do pregador.

Quando o primeiro-ministro, em directo, para microfones,objectivas e fiéis ululantes, acusa os jornalistas e comentadores de serem “pateticamente preguiçosos”, está a evidenciar, com inequívoca clareza, a ideia da função que deles tem e da sua utilidade: câmaras de eco glorificadoras e propagandísticas das suas mentiras, ao sabor dos ventos quotidianos e das suas causas. Que o mesmo é dizer: jornalistas e comentadores são importantes, mas de espinha caída, cangote no cachaço, subserviência ao poder e correia de transmissão da publicidade governamental.

Contudo, salvo raras excepções logo transmutadas em assessores de imprensa ou “agamelados”, a grande maioria dos jornalistas e comentadores, só têm uma verdade: a dos factos. E como os factos fluem em contra-maré de Passos Coelho e suas lesivas políticas, este não muda a mensagem — porque ela é abominável — tenta apenas matar os mensageiros.