O buraco sem fundo da banca ou como tapar buracos da má gestão privada

O último episódio, de mais uma injecção de capital no Novo Banco no montante de 850 milhões de euros, mostra um governo pouco coeso na sua articulação interna e nada coerente com aquilo que diz num dia e faz no outro.

Texto Paulo Neto Fotografia Direitos Reservados (DR)
  • 16:46 | Sábado, 09 de Maio de 2020
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Os portugueses já pagaram milhares de milhões de euros pelas imprudências cometidas pelos “grandes” gestores/administradores da banca nacional. Desde os empréstimos mirabolantes feitos pela CGD – que não têm responsáveis – aos do BES/Novo Banco, entre outros, tem sido um fartar vilanagem que nunca mais tem fim.

O último episódio, de mais uma injecção de capital no Novo Banco no montante de 850 milhões de euros, mostra um governo pouco coeso na sua articulação interna e nada coerente com aquilo que diz num dia e faz no outro.

No dia 7 de Maio, António Costa foi questionado na AR por Catarina Martins sobre esse empréstimo e obteve o seguinte esclarecimento:

“A resposta que tenho para lhe dar não tem grande novidade relativamente à última vez que me fez a pergunta, ou seja, a auditoria está em curso e até haver resultados da auditoria não haverá qualquer reforço do empréstimo do Estado ao Fundo de Resolução para esse fim”.

Porém, o ministro das Finanças já tinha concretizado esse reforço de empréstimo. O que António Costa, estranhamente, ignorava. Se mais tarde pediu desculpa à líder do BE por esse “lapso” – o que lhe ficou bem – o gesto não apagou, antes avivou, a descoordenação existente entre um primeiro-ministro, um ministro das finanças e uma entidade privada, que de injecção em injecção já tinha levado, em 3 anos e reportados a Janeiro de 2020, a bagatela de 2.798 milhões de euros para fazer a limpeza dos activos problemáticos gerados pelos grandes devedores a quem foi perdoada a dívida ou esta se revelou incobrável.

Sobre este assunto, Rui Rio declarou ao Expresso:

“A entrega de mais uma pesada tranche de dinheiro dos contribuintes ao Novo Banco, sem que, mais uma vez, o Governo tenha aferido da necessidade de o fazer através de uma auditoria específica para o efeito, é uma atitude que tem de merecer a nossa clara reprovação.”

E mais disse: “Os portugueses não podem continuar a pagar a falência do BES indefinidamente sem que haja, pelo menos, um rigoroso escrutínio às razões que o determinam”

Sobre esta matéria, André Silva, do PAN afirmou: “para o Governo a banca e os interesses instalados, que têm capturado o Estado nos últimos anos estão à frente dos cidadãos e são sempre a prioridade n.º 1” e acrescentou: “A injeção apressada de 850 milhões de euros no Novo Banco via Fundo de Resolução é uma operação irresponsável, que poderá comprometer ainda mais os resultados orçamentais e a sustentabilidade financeira do nosso país neste ano. De resto, o Governo fê-lo sem que sejam conhecidos os resultados da auditoria às contas do Novo Banco, prometida pelo Primeiro-Ministro, António Costa, em resposta ao PAN, no Debate Quinzenal do passado dia 22 de abril de 2020, o que demonstra uma enorme falta de honestidade e de transparência e um desrespeito pelo Parlamento enquanto órgão de soberania.”

A 17 de Janeiro, após uma notícia saída no Público que dizia “o Estado admite injetar 1,4 milhões de euros no Novo Banco, acelerando assim saneamento completo da instituição que nasceu da resolução do antigo Banco Espírito Santo”, o governo veio negar que estivesse “a estudar uma injeção de capital no Novo Banco e sublinha que o Orçamento do Estado para este ano não tem prevista qualquer verba de 1,4 mil milhões de euros para esta instituição financeira. “

Tenhamos presente que esta herança ainda de Ricardo Espírito Santo, cheia de activos tóxicos oriundos de empréstimos “problemáticos” previa que o Fundo de Resolução injectasse um montante que ascenderia aos 3.89 mil milhões de euros ao banco liderado pelo CEO António Ramalho e detido pelo fundo americano Lone Star que é uma empresa de “private equity” que investe internacionalmente em activos em dificuldades.  Naturalmente porque será um excelente negócio. A Lone Star Founds foi fundada em 1995 por John Grayken, o homem que “faz fortuna com os erros dos outros” e tem na sua estratégia “comprar a preço de saldo e vender depressa e bem”, assim se guindando ao estatuto “de segundo gestor de fundos privados mais rico do mundo”. É este multimilionário que os portugueses ajudam a engordar…

Quanto ao CEO António Ramalho, lembremos a sua muito polémica passagem pela presidência do conselho de administração da CP (2004/2206) nomeado por António Mexia, à época Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações. De seguida passou para a administração da Unicre. Desde 2016, é Presidente do Novo Banco auferindo o salário declarado de 23.542€00 por mês.

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