Na Terra a riqueza…

por Paulo Neto | 2015.09.13 - 11:13

 

Há um interessante mural na entrada da Câmara de Gouveia onde ao lado direito do monarca estão, no mesmo plano, o lavrador e o pastor e a seu lado esquerdo estão o nobre e o falcoeiro. Apoiam os pés na terra produtiva, ladeados de floresta e tendo em primeiro plano os rebanhos de ovídeos e o rio Mondego. Tem uma inscrição que diz: “Lavrarão, pascerão e montarão na maneira que até aqui fizeram”.

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Penso eu – e que me desculpem os doutos historiadores e filólogos – que a citação poderá ser extraída do 1º Foral atribuído por D. Sancho I, em 1186, do 2º por D. Afonso II, em 1217, ou do 3º por D. Manuel I, em 1510. Não importa. Interessa sim o forte impacto que a obra causa em quem a vê/lê e a sua prementíssima actualidade para os tempos que correm.

Sem querer falar de Gouveia muito mais, serve-nos de exemplo de um outrora concelho com maior indústria de lanifícios – juntamente com Seia – que em 1960 tinha 25.210 habitante e hoje (2011) está nos 14.046. O que significa, como a maior parte do interior do país, estar perante o grave problema do recuo demográfico generalizado. Terra de Vergílio Ferreira e Abel Manta, prenhe de tradições, hoje em luta afanosa com um contra-ciclo agravado pela dita “crise” começada em 2008 com a praga do crash americano do sub-prime. Felizmente tem um autarca atento.

O interior está cheio destes casos. Cidades e vilas a braços com a crescente desertificação e postas perante a necessidade de chamar a si os jovens, proporcionando-lhes alternativas viáveis para a sua permanência e constituição de família, com equilíbrio e sem precariedade.

Mangualde, concelho vizinho que o Rio Mondego separa, viu na agricultura um factor determinante para desenvolver o seu território e tentar combater esta “praga demográfica”. Os passos são tímidos mas estão a ser dados com segurança e com incidência no sector primário. Desde o leite aos frutos vermelhos, passando pela maçã, pela vinha, pelo olival e pela floresta, dá-se a mão a uma estratégia nacional “para o desenvolvimento rural, no domínio da melhoria da gestão dos recursos naturais e da protecção do solo, água, ar, biodiversidade e paisagem.”

Há muito a fazer para revitalizar o sector. O associativismo tem um papel fundamental, a vertente tecnológica é decisiva para a modernização e sustentabilidade, o rejuvenescimento do sector agrícola passa por aí, pelo incremento, certificação e promoção de produtos e serviços com elevado potencial para novos mercados, com promoção de tecnologias inovadoras para o sector agro-alimentar e florestal, com a erradicação de pragas e doenças no sector agro-florestal, etc., etc., etc…

Determinantemente a atracção de jovens é prioritária, incrementando a formação técnica e profissional e dotando-os de um saber para se transformarem em empresários agro-pecuários com sustentabilidade e qualidade de vida. Aqui, às cooperativas, cabe mais uma acção essencial, intermediar entre o produtor e o consumidor final, por forma a aumentar os proventos daqueles e reduzir os custos para estes.

E por falar nisso, sabia que e por exemplo no concelho de Mangualde, dos seus 14 mil hectares de floresta, nos últimos anos os incêndios destruíram entre 8 a 9 mil hectares? Sabe o que isto significa em perda e destruição da biodiversidade, erosão e absorção dos excedentes de CO2? Se não sabe, debruce-se sobre o assunto e alarme-se com os resultados da investigação que fizer…

Lembremo-nos que para o êxito do sector terciário, o dos serviços, com a globalização o mais desenvolvido mundo fora, é fulcral o sector secundário, o da economia transformadora das matérias-primas. Mas de onde vêm elas? Naturalmente do sector primário, o da produção através da exploração dos recursos da natureza. Quando este falhar, que é primário e milenar, logo o primeiro, que acontecerá ao segundo e ao terceiro?